Linkagem do meu envolvimento com coisas, animais e pessoas ao imenso frame hipertextual do mundo.
sábado, 1 de setembro de 2012
Meu novo Jornal Literário na web
quarta-feira, 18 de julho de 2012
FACE TO FACEBOOK
Há muito disso: vitrines sem conteúdo, armazéns de frases feitas. Porém até nestas dá para encontrar certa graça, se nos propomos a questioná-las. Outro dia, alguém postou algo do gênero: não seja o sol que brilha, mas o vagalume que ilumina. Comentário meu: “acho que devemos ser os dois, sol de dia e vagalume à noite, porque os brilhos são diferentes”. E pensei: já imaginou só vagalumes de dia? Ia ser muito escuro, igual à noite. (Amo o sol...).
Há também gatófilos e cachorrófilos como eu, então me sinto em casa e tão à vontade que me animei a fazer dois álbuns de fotos: Afetos múltiplos e Eventos inesquecíveis: estes últimos com encontros marcantes, em geral com poetas – tem até Cora Coralina lá: conheci-a em 1982, quando fui a coordenadora do setor de Literatura do Rio no 1º Festival de Mulheres nas Artes (Teatro Ruth Scobar/SP). Aliás, depois que coloquei Coralina, muito mais gente me encontrou no Face. Chamo este fenômeno de brilho por osmose: se você é amigo de quem conhece algum nome famoso, parece que você passa a estar mais perto dessa celebridade. As pessoas “se sentem”. Sentem-se importantes também.
Alguém há de me perguntar: e por quê você quis aparecer ao lado de
Coralina: não foi pelo mesmo motivo? Não, o meu foi afetivo, o partilhamento de
um momento de grande emoção. Quando vi aquela senhora tão velhinha entrar no
Festival (nem sabíamos se ela iria, pois não tinha confirmado a presença)
fiquei encantada: ela parecia tão doce quanto os doces que fazia. Caminhava com
dificuldades, ajudada por duas amigas. Dei para ela autografar o catálogo do
evento, e ela perguntou-me intrigada, sem nem me olhar: - “Você não comprou meu
livro?”. Presenteei-lhe com a verdade: “não tenho dinheiro no momento, Cora”.
Então ela levantou os olhos muito límpidos, me viu – este instante foi incrível
– sorriu para mim (que gracinha!) e disse, como quem faz uma travessura
inocente e nova: – “Sabe?, eu nunca autografei um catálogo”... e ficamos
conversando um pouco – a fila de autógrafos era enorme – sobre a “dor e a
delícia” de gostarmos de fazer poesia. Depois, ela sugeriu que eu ficasse por
ali, perto dela (como se eu pudesse sair... eu estava em estado de transe
hipnótico), e de vez em quando, entre uma e outra dedicatória, trocávamos
algumas frases, eu e Coralinda.
Falei no início em vitrine mas, em meio a
tantas mensagens, observo que a visibilidade pessoal esperada e tão alardeada é
um tanto relativa: há que sermos garimpeiros ou entrarmos no Face com o espírito de “caça ao tesouro”
("sem lenço e sem documento", leia-se, sem mapa com pistas); porém, esperta
que sou, já sei onde encontrar meus ouros: tenho tido muito prazer em acompanhar
as inteligentes postagens do Chico (chequei até a compartilhar uma música
através dele), da Ivana, do Zeballos, da Márcia Sanchez, da Leninha, do Braulio
Tavares, do Affonso Romano, do Henrique Cairus, da prata da casa – Urhacy Faustino e
Mônica Banderas – entre vários outros. Isso me faz pensar no óbvio: o ser
humano estraga ou enriquece as redes sociais de que participa. Simples assim.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Jogamos mesmo fora todo lixo que não presta?
Serres mostra que todo animal, pela urina, pelo excremento,
pelo sangue e pelo esperma – conforme o caso
– apropria-se de um local, terreno ou
território (que pode ser a territorialidade de um país ou de um corpo). Os
cães, os javalis e os gatos urinam para marcar sua passagem; as tribos
antropófagas, ao devorarem o inimigo, apossavam-se das qualidades dele – só os
guerreiros considerados heróis eram merecedores de tal honraria; nos rituais de
sacrifício religioso (ainda hoje) e nas guerras (tradicionais), a terra onde o
sacrificado ou o inimigo tomba torna-se sagrada para o vencedor, “legitima-o em
sua posse”.
Sujar, no sentido de macular, de marcar presença, pertence
ao animal – ao animal que também somos: “a sujeira e a limpeza delimitam
a propriedade”. Por
exemplo: em um hotel (ou motel), após a saída de um hóspede, o próximo a se
instalar exige roupas de cama limpas, para que possa apropriar-se e imprimir
suas marcas, quaisquer que sejam, mesmo que seja apenas um simples amarfanhado
nos lençóis; ninguém se enxuga, também, nas toalhas de outro, ou senta-se em
vaso sanitário que não tenha o aviso de que foi higienizado. Não que o escritor
preconize uma sociedade ascética – o excesso de limpeza é tão nocivo quanto o
seu contrário; não, a direção que ele segue é outra – ao final exporei a
proposta dele.
Serres tem o cuidado de observar a “Modernidade Líquida”
(outro livro incrível, do sociólogo Zygmunt Bauman), analisando a poluição suave
– ou seja, sutil – que mal percebemos de tanto que ela já está impregnada
em nosso cotidiano: a poluição da marca e da propaganda – imagem e som – que atravessa nosso caminho e entra pela nossa
casa. É belíssimo quando ele escreve que os outdoors
roubam-nos a paisagem e que o barulho de uma televisão ligada apropria-se da
convivência/fala entre as pessoas em um determinado local e até da intimidade
do silêncio. “Os
poluidores sujam o mundo para dele se apropriar”.
Trata-se de uma expansão desterritorializada, globalizada, sem fronteiras,
apropriação que nos faz ter “um
subjetivo tão poluído quanto o coletivo e o objetivo”.
O pensador francês diversifica e amplia o conceito de lixo
para inúmeras áreas, e em certo momento chega à indústria automobilística,
refletindo sobre suas estratégias e ciladas – tantas vezes imperceptíveis, embora
“expostas ao olhar de todos”: [tais setores] “dividem com o comprador a
propriedade. São ainda mais espertos, eles ficam com ela!”, pois um carro não
anuncia o nome nem o estilo de quem “pensou tê-lo comprado; (...) o que ele anuncia
é a marca do fabricante. Pagamos às montadoras o que compramos, mas, de certa
maneira, elas ficam com o que vendem. Permanecemos apenas locatários. Somos
roubados, mas em troca podemos, enfim, compreender a máxima famosa de Prudhon: ‘A propriedade é um roubo’!”. E o escritor finaliza, ironicamente, acrescentando
que, iludidos, ainda fazemos fila para multiplicar, no sentido de apoiar e
fomentar, a publicidade da qual somos vítimas.
O que Serres sugere é encontrarmos o que é próprio de uma
sociedade (propre também pode ser
traduzido do francês como limpo/limpa, e aqui a ambiguidade de sentidos é
importante)), a fim de descobrir o que realmente há nela depois que a
desvencilhamos de “tsunamis
de lixos” e de dejetos dos
mais variados tipos: industriais, tóxicos, culturais, publicitários,
identificadores sociais (carteiras, cartões de crédito, talões de cheques),
etc. e tal. Neste contexto atual, de “invadir
o mundo e ocupar sua extensão, corremos o risco de perder o caminho da
hominização”, já que vivenciamos
inclusive o perigo cada vez maior de sermos locatários do planeta, em vez de o
habitarmos de forma responsável, consciente e plena. Então, é o retorno a este
processo de hominização que o autor propõe, nem que seja apenas estando atentos
ao reconhecimento do lixo que acumulamos e da poluição diária que respiramos (e
que nos sufoca) de forma ininterrupta, em diversas áreas, para tentar
minimizá-los também dentro de nós. Difícil? Muito. Mas não de todo impossível.
Leila Míccolis
domingo, 27 de maio de 2012
Fui um réptil?
Leila Míccolis.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
- No Youtube, entrevista para o programa de televisão Imagem da Palavra, entrevistadora: Guga Barros
http://www.youtube.com/
- No blog da famosa revista Escrita (agora digital), entrevistador: Wladyr Nader
quinta-feira, 22 de março de 2012
Uma coruja pousou em minha defesa de tese
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
CAMADAS
intocável, sem entregas,
nem se dar também, às cegas,
a tudo o que nos agrade.
Ser livre é viver a idade
que sente o nosso querer,
é viver conforme a vida
é sobretudo viver.
E viver é mergulhar
para emergir com o submerso,
ampliando, a cada dia,
os limites do universo.
Leila Míccolis
Do livro: "Sangue Cenográfico"
domingo, 19 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Da primeira novela a gente não esquece
de setembro de 1986 a março de 1987
Eu estava nervosa, uma
pilha. Embora ninguém colocasse nestes termos, eu sabia perfeitamente que
aquele seria um teste, não para passar de ano, mas para mudar o curso do rumo
de minha vida, talvez provisório-definitivamente... Pela primeira vez eu ia
escrever para a televisão com créditos na tela. Isto, se fosse aprovada. Óbvio.
Lá fomos nós: eu e meu
medo. Tocamos a campainha, Silvan Paezzo nos atendeu, com olhar sisudo,
convidando a entrar; finalmente, eu estava diante do "monstro
sagrado" da minha juventude. Eu tinha lido todos os seus romances
críticos, violentos, entre fascinada e horrorizada, e, até hoje, amo-os
profundamente. Também foi dele a única novela que acompanhei, antes de escrever
para a TV. Lembro-me de que Juca de Oliveira fazia greve de fome para
sensibilizar a heroína, sua bem-amada, e, depois de conseguir tê-la em seus
braços, com tanto sacrifício, ele morria no último capítulo, vítima de anemia.
Só mesmo um grande autor seria capaz de uma ousada e perigosa reversão de
expectativa desse tipo. Pois era diante dele que eu estava...
Em poucas palavras Silvan
me colocou a par da situação: precisava de uma colaboradora para acabar
"Mania de Querer" (1987), pois, por problemas internos, mais da
metade do elenco tinha saído; precisava então refazer a sinopse, pois a novela
era praticamente outra, precisava mudar até os rumos da trama, devido à
debandada de atores. Perguntou-me se eu tinha experiência em TV e respondi que
só fizera um Caso Verdade, comprado pela Globo, através de Henrique Martins,
mas que o seriado não tinha sido exibido, por causa da censura prévia, o tema
era muito forte (barriga de aluguel) para o horário da tarde. Ele foi durão:
"– Saber que você escreve bem, eu sei, todos sabem; mas, como não li
nenhum roteiro seu, preciso ver seu estilo. Me escreve aí a seguinte cena: uma
mulher bonita está malhando, sozinha na academia, quando entra o ex-namorado,
agarra-a e transa com ela à força". Pensei de imediato: ele tinha
que começar logo com um estupro?...
Lembrei-me, porém, da "Época dos tristes", "Diário de um transviado", "Av. Copacabana 389 apt 801", "Santa Rosinha do Mangue", "Madame Satã" e achei que ele estava sendo coerente, seu pedido fazia sentido. Caprichei então, carreguei nas cores para ser tão realista e forte quanto o "Mestre". Quando acabei, ele leu, franziu o cenho e disse: – "Bom texto, mas muito pesado, principalmente partindo de uma mulher"... Senti uma incômoda sensação de "déjà vu", pois já ouvira muito a variante desta frase com relação a minha poesia. Só que, partindo dele, eu não esperava. Rapidamente levantei-me para ir embora, achando que todas as minhas chances tinham ido por cena abaixo, e lhe respondi, de forma um tanto brusca (pois queria sair dali o mais rápido possível): – "Desculpe, Paezzo, eu não sabia que você queria um estupro leve". Levantei-me já pronta para sair e ele me disse em seu tom seco: – "Senta aí. "Está contratada".
Até hoje não sei se a decisão dele foi motivada pelo que escrevi ou pelo modo com que reagi. Sei que nos entendemos bem. No último dia de trabalho, levei seus livros e pedi que os autografasse. Os exemplares estavam velhos, amarelecidos, com a capa quase despencando, e cheios de anotação. Surpreso, ele folheou-os: "– Esses realmente foram muito lidos". Confirmei: – "Foram. Para mim, você é um dos melhores romancistas deste país". E complementei logo, já que eu sabia que ele não me perguntaria, mesmo que desejasse muito saber a resposta: – "Não lhe falei isto antes, porque eu não queria que minha admiração interferisse na nossa convivência profissional, nem que você pensasse que eu estava te elogiando por puxa-saquismo". Ele emocionou-se. Sei disso porque, pela primeira e única vez, ganhei dele um tímido sorriso. E este, eu tenho certeza, não foi pelo que eu lhe dissera, mas pela capacidade, que sempre tive, de surpreendê-lo.
***
Eu terminara esta crônica
no parágrafo acima, pois nunca mais o vi depois daquele dia e sabia que ele
falecera no ano 2000 – Mania de Querer fora seu último trabalho para a
televisão. No entanto, há alguns anos, o filho dele entrou em contato comigo
(eu o conheci quando ele tinha dois ou três anos de idade), através de uma rede
social e me fez uma grande revelação: – "Meu pai falava que você tinha
sido a melhor parceira de toda a carreira dele; ele tinha enorme admiração por
você". Ao saber disso, pensei: se em vida sempre surpreendi Silvan, agora
ele fizera o mesmo comigo – uma bela reversão
de expectativa, que também me fez sorrir timidamente emocionada.
Leila Míccolis
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
ZOOM
de juntar flores e feixes,
percorre alegre a lagoa
fazendo cócega aos peixes...
Leila Míccolis
Poema constante do projeto CeluLer - poesia diária por telefone
(Foto extraída do site: http://cliqueambiental.blogspot.com/2011/02/lagoa-do-peixe-um-paraiso-de-aves-aguas.html)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Arco-íris e trovões
Fotógrafo: Nicodemos Rosa
Fonte: http://www.panoramio.com/photo/32439284
Só o céu consegue o tento
de ser bravo e colorido
ao mesmo tempo.
Leila Míccolis
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Dar nomes ao cão (***)
_____"Ouou" me cai muito bempor causa do meu latido.
Se chegam desconhecidosaí sim, eu solto a voz,porque Leila me ensinou:“Cuidado: gente feroz!”Já perguntaram pra mim,se inspirei uns versos dela
sobre um tal de "Rin Tin Rin".Isso eu não sei (talvez sim),não conheço este carinha,nunca fui apresentado
(será que agita a patinha
quando também pede agrado?).
Sou "Lobo", pra vizinhança,sou "Totó" para as crianças,mas pros íntimos de casa,
não ligo pra nome não:fico prosa e todo em brasaquando a mão deles me afaga,dizendo muda: meu cão.
Leila Míccolis
(***) Parafraseando o título do poema de T. Eliot, "Dar nome aos gatos".
Publicado no livro: Poemas que latem ao coração, org. Ulisses Tavares, Ed. Nova Alexandria, 2009, SP.
N.A.: Ouou ainda chegou a ver o livro, pois morreu em outubro de 2010.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
FUZILAMENTO
Apontar...
Atirar...
Goool...
Leila Míccolis
Do livro: MPB: Muita Poesia Brasileira, Ed, Trote, 1ª ed. 1982, RJ
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Missão cOmprida
uma grande barriga bem alimentada
uma amante infiel
uma esposa comportada
carro do ano
filhos rebeldes ao teu jugo tirano
casa própria, emprego com crachá
um sítio em Visconde de Mauá
um ufanista amor pelo país
tudo como manda o figurino
(de Paris).
E morrerá, cumprindo a sua parte,
de tensão ou de enfarte,
de repente,
sem nem ao menos de longe perceber
que podia ter sido diferente.
Leila Míccolis
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
RJ TV
Cidade grande
é um sofrimento:
o tráfico a mil. O tráfego lento...
Leila Míccolis
Publicada originariamente na Revista Os Urbanitas - Revista de Antropologia Urbana, Ano 2, vol. 1, (ISSN 18060528), SP, 2005
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
SEREIA, JANAÍNA, IEMANJÁ
Vem meu veleiro navegar-me lendas
que abro oceanos nunca desbravados,
as portas líquidas dos meus reinados,
e armo de pérolas as nossas tendas...
Vê-me a nudez — afasta as alvas rendas,
que encontrarás tesouros afundados;
só que talvez, pra teres tais agrados,
ao mar pra sempre tua vida prendas.
Se mesmo assim o novo lar não temes,
se não recuas, e se ainda gemes,
por meu amor, sedento de paixão,
cheia de luzes, colorida amante,Leila Míccolis
eu verde, azul, e em brilhos deslumbrantes,
refratarei-me em tuas redes-mãos.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
TORCIDA
Contestando alguns libelos
que eu sempre julguei daninhos,
desde meus tempos mais idos,
quando havia algum duelo
entre o bandido e o mocinho,
eu era mais o bandido...
Leila Míccolis
Do livro: "MPB - Muita Poesia Brasileira", in Sangue Cenográfico, Blocos, 1997, RJ
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Geração Inde(x)pendente
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
O MICRO E EU
Quando o micro chegou em minha vida achei até que a adaptação foi fácil quanto ao teclado de digitação. O pior era criar um arquivo e salvar... Eu escrevia todos os passos (que eram apenas quatro ou cinco) em um caderno, tudo explicadinho. Na hora de fazer, salvava tudo errado. Nestas horas, meu amigo, que pacientemente me ensinava, ficava horas pelo telefone me teleguiando à distância para me ajudar a descobrir onde eu salvara o arquivo perdido, sempre nos lugares mais loucos do mundo, ou melhor do micro, óbvio.
Uma vez, ainda neste estágio preliminar, perdi uma peça de teatro que eu estava criando. Do primeiro arquivo deletado a gente não esquece... A peça se chamava "Fora de Forma" e eu não tinha "backup", aliás, foi a primeira vez que fui apresentada a um arquivo de segurança, pena que justo em meio a uma situação tão dramática (e a peça era uma comédia...).
Fiquei muito magoada com o micro, porque achei que a culpa era dele, eu não tinha feito nada demais. Ele é que estava a fim de atrapalhar o meu trabalho. Então, lembrei-me dos filmes em que o computador tinha vontade própria e por um bom tempo (alguns minutos) considerei-o um inimigo. E ele agiu assim, realmente. Quando eu estava trabalhando na reformatação da "74.5 - Uma onda no ar" para a TV portuguesa, ele literalmente "explodiu". Fiquei três dias trabalhando com um dos micros da produtora e, quando o meu chegou do conserto, veio com um rombo na "placa mãe". Disseram que, para consertá-lo direito, levariam muito tempo (na verdade, como era a produtora independente quem estava pagando o conserto, ela disse para fazer o micro funcionar rápido, e os técnicos fizeram apenas um "gatilho" provisório). No entanto, a partir daí, ao ver meu computador, mesmo combalido e fraco, quase sem memória, esforçando-se para cumprir suas tarefas (às vezes dezoito horas seguidas de trabalho), sem "esmorecer", sem pifar, sem me deixar na mão, comecei a gostar dele: o danado era resistente como eu, tínhamos garra... na primeira manifestação de simpatia de minha parte, ele recolheu as garras e eu baixei a guarda.
Vários anos se passaram desde então. Neste exato momento, confesso que não poderia viver sem ele, ou melhor, abandoná-lo seria tão triste quanto me separar de um ente querido — e atentem para o detalhe de eu tê-lo chamado de "ente"... —, principalmente depois que nós, eu e Urhacy, instalamos a internet (desde julho/96), construímos um site cultural, Blocos (http://www.plugue.com.br/blocos) e fizemos muitos amigos. A última da internet foi tão fantástica que quero partilhar com vocês: em agosto de 1984, no dia do enterro de meu pai, soube da existência de uma irmã (também filha dele). Depois deste dia, nós nos mudamos, e nos perdemos. Há duas semanas, ela me reencontrou pelos mecanismos de busca da internet, há mais de dez anos mora nos Estados Unidos. Todos os dias temos falado durante horas, pelo ICQ. E eu, que sempre fui criada como filha única, de repente vejo-me com sobrinhas e com a alegria de já ser, até, tia-avó... Parece trama de novela de televisão, mas é vida real.
Tanta emoção devo ao meu querido computador, esse amigo maravilhoso amigo de todas as horas — de diversão, conversas, jogos, informações e trabalho. Agora, sendo considerado como tal, ele me premia, retribuindo em dobro toda a felicidade que sinceramente lhe desejo. Portanto, se você ainda está na perigosa fase de atração e rejeição pelo seu micro, ultrapasse-a logo: descarte a primeira parte e fique com a segunda. Para o bem dos dois. E de todos.
Texto publicado no Caderno de Informática do Estado de São Paulo, fls. 2, em 06/04/98
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
A SECO
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.
Leila Míccolis
Do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
VÃ FILOSOFIA...
Falas muito de Marx,
de divisão de tarefas,de trabalhos de base,mas quando te levantasnem a cama fazes...
Leila MíccolisPoema do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Clipes, grampos e elásticos
Sabemos quem foi o inventor do telefone, do para-raios, da lâmpada elétrica, mas... e dos clipes? Dos elásticos, já que eles são feitos de qualquer material que tende a preservar seu cumprimento, forma e volume contra as forças externas, nos lembramos logo de Newton e a sua lei da ação e reação. Sobre o grampo (de construção) encontrei um site com uma explicação tão interessante, que não resisto em dividir com vocês: sua origem data dos antigos persas, "que precisavam de uma solução para manter firmemente unidos os blocos de pedra que utilizavam nas construções de Pasárgada, sua primeira capital imperial (hoje, no Irã). Foi então que um dos construtores inventou um pedaço de metal torto, como se fossem dois pregos unidos por uma mesma cabeça, que era fincado contra dois blocos. Nasciam os famosos grampos, que serviriam para unir vários objetos ao longo da história".
Sobre os clipes, porém, não encontrei nada, nadinha, o que considero uma tremenda injustiça. O clipe prende, agrega, une democraticamente quaisquer papeis sobre os assuntos mais heterogêneos que resolvamos juntar, dependendo de nossa criatividade ou doideira. Para ele não importa a textura ou o volume de páginas, desde que respeitado, óbvio, sua capacidade proporcional ao seu tamanho: está sempre pronto a ligar, a não deixar as palavras soltas ao vento, com uma vantagem a mais do que o grampo: o clipe prende transitoriamente, permitindo mudar a ordem das páginas à vontade, ou seja, permitindo uma infinidade de combinações sem agredir os papéis (ao contrário, se grampeamos errado alguma página, retirar o grampo, por maior cuidado que se tenha, deixa marcas no papel).
Fiquei pensando que deveria ser um grande elogio revelar para alguém que amamos: você é meu clipe, desde que o outro imediatamente entendesse a mensagem como: você é meu elo de ligação entre os diferentes aspectos do que sou. Mas, dependendo do outro, talvez a mensagem fosse recebida de modo truncado e surtisse o efeito contrário, como: considero você um objeto para mim, ínfimo e banal... Temos que admitir que há pessoas que complicam tanto a vida que perdem a capacidade e a sensibilidade de perceber a velada dimensão dos objetos simples.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Ponto de vista

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.
Leila Miccolis
Poema do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ
sábado, 28 de janeiro de 2012
Para um sábado com mais sabor, uma receita naturalista

Abobrinha ao catupiry
Ingredientes:
1 abobrinha lavada grande, cortada em tira no sentido do comprimento
1 ovo
leite
farinha de trigo
1 lata de milho verde escorrido e lavado
manteiga1 cebola pequena bem picadinha
cheiro verde - 1 caixa de catupiry (pode ser um copo de requeijão cremoso)
1 pacote pequeno de batata palha
sal e pimenta do reino a gosto
óleo para fritura
Modo de fazer:
1 - Abobrinhas - Faça uma massa misturando ovo, leite e farinha de trigo, temperada com sal e pimenta do reino a gosto. Deixe as abobrinhas imersas nessa massa, por cerca de meia hora, pra que fiquem bem envolvidas. - Passe as abrobrinhas molhadas na massa pela farinha de trigo, frite-as dourando bem dos dois lados em óleo quente. Escorra em papel absorvente e reserve.
2. Milho - Numa panela aqueça a manteiga e frite a cebola até dourar. Refogue o milho escorrido e lavado, tempere a gosto com sal e pimenta do reino. Desligue a panela e acrescente cheiro-verde picadinho. Reserve.
3. Montagem do Prato - Aqueça o forno - Num refratário vá colocando em camadas: abobrinha, milho e catupiry. A última camada deve ser de catupiry. Jogue as batatinhas por cima e leve ao forno pra gratinar. Sirva com arroz e salada ou legumes verdes.
Receita enviada pela Thaty Marcondes
Leiam mais de 200 receitas naturalistas em meu site:
http://www.blocosonline.com.br/sites_pessoais/sites/lm/culinar/culititrec.htm
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
EMPREGADA VIRTUAL
Manuela era uma
empregada que mamãe não tinha, ou seja, uma abstração.
Sempre que ela queria
me chamar atenção por alguma coisa, dizia: – "Vai arrumar o quarto (ou
lavar o prato ou qualquer outra coisa no gênero) que a Manuela hoje não
veio". Eu já estava acostumada. No entanto, como falava na frente das
visitas, algumas não percebiam que se tratava de uma ironia da parte
dela.
Um dia, uma de suas
amigas lhe falou: – "Essa empregada falta mais do que trabalha, não sei
porque você ainda não a despediu". Só então mamãe se deu conta de que a
brincadeira estava sendo levada a sério e tratou de desfazer o mal-entendido,
contando que Manuela não era real, não existia, era uma piada, hoje falaríamos
fake...
Quando D. Rosalinda
soube que não havia Manuela nenhuma, ficou visivelmente consternada. Eu era
criança, mas percebi seus sentimentos pela expressão semelhante a que eu
própria tive quando soube que Papai Noel não existia. Na época, se meus
coleguinhas diziam que o "bom velhinho" era mentira, eu estufava o
peito e argumentava: – "Mamãe disse que ele existe e eu acredito, porque mamãe
não mente". Imagine então a surpresa quando encontrei os presentes que eu
pedira de Natal no guarda-roupa de meus pais (naquela época, naturalmente, eu
ainda não discernia a mentira da fantasia e da ficção; aliás, porque as
fronteiras entre este trio às vezes são bem difusas e tênues).
Pois foi a mesma cara
de decepção que eu vi estampada no rosto da visitante, abalada com a
informação. Na hora não entendi direito o porquê, mas hoje penso que talvez
minha mãe fosse a única das amigas de D. Rosalinda a ter uma empregada, ainda
por cima uma empregada faltosa, cuja patroa, em sua grande generosidade, a
mantinha há anos. Portanto, mexer em Manuela, era também, de certa forma, achar
que minha mãe era... digamos insincera, para não taxá-la de mentirosa – isto
abalaria a confiança que sentia pela grande amiga.
Manuela só ressurgiu
das cinzas, na minha vida, quando recebi de uma amiga, uma frase de Wilhelm
Stekel (quanto tempo não ouvia falar no discípulo de Freud – eu era sua
fervorosa admiradora nos tempos da minha Faculdade de Direito, época em que eu
lia mais psicanálise do que obras jurídicas.... Depois mudei para Reich, mas
esta é outra história). Escreveu Stekel: "Nem sempre a verdade é
fundamental para a nossa felicidade... Existem pessoas que morrem quando seus
olhos são abertos!" (O Pato Selvagem, de Ibsen, teatraliza este tema de
forma intensamente impactante).
Logo que terminei de
ler a frase do psiquiatra austríaco, D. Rosalinda me veio à cabeça, porque não
parou a dois parágrafos atrás a história dela com Manuela: foi tão forte para a
amiga de minha mãe a ideia da inexistência daquela empregada, a quem
provavelmente já imaginara com um corpo, gordo ou magro, e com uma história trágica
a lhe justificar tanta falta, que a visitante preferiu pensar que minha mãe
mentira sim, porém com a melhor das intenções, a de não "humilhá-la",
pois D. Rosalinda jamais poderia pensar em ter uma – professora sempre foi mal
remunerada em nosso país... Todos reverenciavam minha mãe por seu caráter
ilibado, por ser devotadíssima diretora de escola primária e mestra também em
delicadezas (na época dela – pasmem – as pessoas ainda tinham respeito umas
pelas outras, achávamos verdadeiramente que "ninguém era melhor do que
ninguém" e que bofetadas, só se dava... com luvas de pelica).
Provavelmente por isso, a visitante preferiu acreditar nesta versão criada por
ela mesma, por ser mais condizente e à altura da admiração nutrida por sua
colega de profissão. Foi aí que a expressão facial dela repentinamente
desanuviou-se, transformou-se, e, visivelmente, os sentimentos de frustração e
de insegurança que sentia deram lugar a um largo sorriso de imensa gratidão.
Manuela morreu com mamãe, mas, por tantas e tantas histórias a ela atribuídas, foi a mais forte das personagens fictícias a conviver comigo na infância. Depois de Papai Noel, é claro.
Leila Míccolis
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
ALVOS
me chamam de doida;
eu sorrio e os apedrejo,
pra aprenderem
que as loucas têm perfeita pontaria.
Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
HORÁRIO NOBRE
As mães dos meu edifício
falam assim com seus filhos:
— "Cuidado pra não cair...
Se sujar a roupa nova
eu vou lhe dar uma sova".
Tem outra espécie, também,
que sempre se sobressai,
a que ameaça terrível:
— "Eu vou contar pro seu pai"...
Por fim, eu ouço a que diz:
— "Ah, meu Deus, que mal eu fiz
pra ter tido este estrupício?"
Eu então, ouvindo isso,
me arrisco a uma conclusão
sem brilho e bem pessoal:
mãe sorrindo para os filhos,
só na televisão
em algum comercial...
Leila Míccolis
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
RECUERDOS DO CEARÁ
Em
1977, deixei a advocacia para me dedicar a outra “causa” – a literária –, cheia
de Ágape, chama do entusiasmo que até hoje não perdi, porque amo o que faço.
Logo no ano seguinte, em 1978, Wladyr Nader, da então heroica Revista Escrita
(SP), encomendou-me pela sua Editora Vertente, uma antologia com poetisas
"não-alinhadas", ou seja, escritoras que não estivessem satisfeitas
com a situação do mundo nem com a própria condição feminina. Reuni dez
"Mulheres da Vida", título polêmico, próprio para mulheres que
estavam na vida, questionando diversos aspectos individuais e sociais. O
título, severamente criticado por direitistas severos, por esquerdistas
tradicionalistas e até por centristas pseudomoralistas, foi muito bem compreendido
pelo público, que o interpretou corretamente, sem conotações depreciativas, como,
aliás, eu previra mesmo que assim fosse.
Lancei
a antologia no Rio de Janeiro e em várias capitais nordestinas, inclusive
Recife e Natal. Quando cheguei em Fortaleza, nenhuma livraria queria aceitar o
livro. Estávamos ainda sob o tacão da repressão e os livreiros receavam que a
polícia aparecesse e fizesse das suas costumeiras gentilezas: invadisse a loja
selvagemente, batesse nas pessoas, rasgasse obras, revirasse todas as
prateleiras, instalasse o pânico. Ninguém queria correr este risco, de questionar
e/ou desagradar a TFP (Tradição, Família e Propriedade). Para piorar, um
jornalista que ouviu cantar o galo, mas não sabia onde (no caso, não lera o
livro mas queria parecer bem informado), resolveu escrever que "Mulheres
da Vida" era um relato autobiográfico de dez prostitutas. Eitcha! Aí
danou-se tudo, fecharam-se de vez as portas de livrarias, pois todas eram muito
decentes, de boa reputação e de fino trato.
Liguei
para minha amiga Socorro Trindad, em Natal, uma das integrantes do livro (as
outras eram: Norma Bengell, Isabel Câmara, Maria Amélia Mello, eu, Eunice
Arruda, Aninha Franco, Glória Perez. Many Tabachinik e Réca Poletti). Relatei
minha dificuldade, e depois de pensar um pouco ela me sugeriu: "Bom, se
estão falando isto de nós e se as livrarias não aceitam comercializar o livro,
então lance-o num prostíbulo"... Gostei da ideia. Dirigi-me a uma casa que
achei simpática, nas imediações da Praça São Sebastião, e fui muito bem
recebida lá. Maria Loura deu-me todas as facilidades para a realização do meu
projeto, e, alguns dias depois, autografei o livro no Cabaré Estrela do Oriente.
O
que devia ser um lançamento de livro, transformou-se a ser algo diferente,
inusitado, com inimagináveis significados simbólicos – uma espécie de manifesto
cultural, um ato de veemente protesto, chamando a atenção da mídia para o
evento. Resultado: todos os jornais e televisões cobriram a "ousada
manifestação cultural" e nunca tive um lançamento fora do Rio de Janeiro
com tanta gente (inclusive foi lá que conheci Paulo Veras, saudoso parceiro
depois, no livro "Maus Antecedentes"). A intelectualidade em peso
esteve presente, e também inúmeros políticos, que hipocritamente "hipotecaram
sua solidariedade à nobre causa" literária... Vendi tanto livro que os
exemplares que levei não foram suficientes para todos os leitores; acabei vindo
com mais de cento e cinquenta encomendas pagas, mesmo os compradores sabendo
que só receberiam o seu exemplar quase quinze dias depois, quando eu retornasse
ao Rio de Janeiro.
O
mais bonito de tudo, porém, foi a atitude da dona do bordel. Ela estava muito
contente pelas altas personalidades em seu estabelecimento, é claro, mas estava
mais comovida ainda pelo livro em si, por escritoras de nome não terem tido
medo de serem "confundidas com elas". Eu raramente vi alguém pegar um
exemplar com tanta consideração, com tanto respeito. Também raramente vi alguém
ter uma interpretação tão simples e tão adequada de meus poemas. Era uma fase
em que eu, propositadamente, queria chocar os bem-comportados, sacudir-lhes os
ombros, e não media palavrões para agredir os puritanos. Pois ela, sem se
importar com as palavras "de baixo calão" (afinal, costumava ouvi-las
todas às noites justamente dos bem-comportados e dos puritanos), atravessou-as
com a maior naturalidade e se deteve no cerne da mensagem, que elas conheciam
na própria pele: a denúncia da desigualdade de gêneros, o farisaísmo, a
opressão, a repressão.
Maria
Loura estabeleceu as "medidas de exceção" que achou compatíveis com a
ocasião solene: a primeira delas foi a ordem expressa para que nenhuma de suas
meninas trabalhasse naquela noite, o que desmontou a imagem que tinham me dado,
de que elas fossem extremamente interesseiras e mercenárias. Aquelas, se
fossem, teriam aproveitado muito a chance de triplicarem os lucros pela grande
freguesia interessada nelas, já que o programa era insólito na cabeça dos
homens: compre um livro e leve uma menina... Una o útil ao agradável. Porém
todas disseram não. Trabalho, naquela noite, só de garçonetes, servindo as
mesas com bebidas e tira-gostos... Depois, Maria Loura continuou me surpreendendo
quando não aceitou o percentual da venda do livro, combinado anteriormente.
Alegou que o consumo de comes e bebes fora mais do que suficiente, lucrara com
isso e, principalmente, com a propaganda; por fim, no final da noite, ainda se
sentou com suas meninas e varou a madrugada me contando histórias, de alegria,
de dor, de decepção, de esperança, e todas me tocaram profundamente, mudando em
muito a imagem que eu tinha da "profissão mais antiga do mundo"....
Tenho
um carinho especial ao lembrar-me deste lançamento, e o considero como sendo o
melhor que já tive em minha vida.
Ao
pensar em Maria Loura e nas mulheres do Cabaré Estrela do Oriente muitas vezes
me veio à mente a letra de Chico Buarque de Hollanda, "Umas e
Outras", na qual uma freira e uma prostituta cruzam a mesma rua: "Mas toda santa madrugada/ quando uma
já sonhou com Deus/ e a outra, triste namorada,/ coitada, já deitou com os
seus,/ o acaso faz com que essas duas,/ que a sorte sempre separou,/ se cruzem
pela mesma rua/ olhando-se com a mesma dor"... Não se trata de uma
comparação, óbvio, porque nenhuma das escritoras era freira, nem “perdidas”;
mas, sem dúvida a conexão e a analogia aproximativa são visíveis: mesmo com
vidas tão diversas, porém com tantos sentimentos conflitantes em comum provenientes
de uma sociedade patriarcal desigual, manipuladora e autoritária, nos reconhecemos
plenamente naquela noite, naquela mesma rua, olhando-nos (poeticamente) com a
mesma dor e com a mesma com/paixão pelo mundo.
VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro
VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...