segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

POESIA COMENTADA


Conheci Paulo Leminski em um lançamento na livraria Muro, onde havia sempre noites de autógrafos coletivas, na época; em uma dessas noites de 1980 Alice Ruiz estava lançando no Rio seu livro Navalha na Liga. Eu já me correspondia há mais ou menos um ano com ela (por carta mesmo, manuscrita, posta no correio, essas coisas antigas...) e confirmei minha presença. Como sempre o local estava repleto, mal se podia andar, perguntei a diversos amigos onde estava Alice, mas todos só me apontavam para o Paulo, cercado de admiradores. Sentei-me conversando com algum poeta e pensei: deixa diminuir um pouco a multidão que talvez eu a encontre mais fácil. No meio da conversa, eis que chega alguém para mim e diz: — Leila Míccolis? Sou seu fã. Para meu espanto era o próprio Paulo. Respondi-lhe, rindo: — eu também, só que hoje estou aqui principalmente para conhecer sua mulher... E ele, simpatissíssimo: — vamos, eu te levo até ela... Foi assim que conheci o grande casal de poetas. Eles me convidaram para ir no dia seguinte até o apartamento em que estavam hospedados, e a partir daí nasceu uma amizade um tanto longínqua (eles moravam no Paraná), mas muito forte entre nós três. Várias vezes Paulo citou-me em suas entrevistas e artigos (eu até hoje cito-o sempre: "vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia") e estivemos juntos em diversas mesas de debates literários, o que também acontece com Alice.


O  poema abaixo para mim é uma pérola, das muitas que Paulo escreveu: ele é um dos raros autores em que a forma não limita o conteúdo de seus poemas, ao contrário, dança com ela. Conseguia o poeta a mágica de brincar com a assonância das palavras, sem que isto afetasse a reflexão séria sobre o tema proposto. Os sons deslizam pelo poema, fluindo com extrema facilidade. Do livro Caprichos e relaxos (Brasiliense, SP, 1983) escolhi estes versos (poderia ter optado por diversos haicais belíssimos), também pela dificuldade de se encontrar ângulos diferentes dentro de um tema universalmente tão abordado como o sentimento amoroso. Eis uma lírica sem o exacerbado sentimentalismo romântico, com suas metáforas açucaradas; eis uma lírica que adapta a conhecida tese científica de Lavoisier e inteligentemente a desloca e a aplica ao cotidiano de todos nós.


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

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