quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MERA COINCIDÊNCIA

    Fonte da imagem:
     http://blogclickae.blogspot.com

    Quando ela o viu
    perto do poste da praça,
    belo espécime da raça,
    notou semelhança extrema
    com um artista de cinema.
    Mas não achava com quem
    se parecia o seu bem.
    Hoje dentro do drive-in
    lembrou do galã enfim,
    cara d’um, focinho d’outro:
    pois não é que o seu garoto
    é o sósia do Rin-Tin-Tin?...


                           Leila Míccolis

    Do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

MEU MANUAL DE MANUEL

                                           Retrato de Manuel Bandeira por Cândido Portinari


Faltou luz a tarde inteira
e eu não pude ligar o micro.
Então, fui reler Bandeira:
Poética, A Canção do Beco,
Teresa, Arte de Amar, Martelo,
Neologismo, Carta do meu avô,
Preparação para a Morte...
Pensão familiar...

Ele rimava porque queria rimar,
não porque precisasse:
cada verso seu
é uma obra completa.
O poeta
era a própria Passárgada,
o amigo, o rei
e até mesmo a filha
— amante da Poesia.

Teria conhecido Cuzco, como desejava?
Parou de tossir?
Parou de morrer?
Se voou para os céus dos passarinhos
já deve ter se encontrado com Mozart,
com Irene,
com o balão que subiu
e não caiu na Rua do Sabão...

Fim do dia, meu poeta.
Lá fora, os Sapos, mesmo não lendo tua obra,
declamam dentro do mato:
— “Não foi!” — “Foi” — “Não foi”...
(Ou são cãezinhos bebendo água:
Cloc... cloc... cloc... ?)

Com um toque,
fecho o livro, não há mais luz pra leitura,
mas continuo lembrando a textura
dos teus versos
tão imensos, tão imersos
nos movimentos do mundo.
E mesmo no escuro de uma noite como esta,
sem lua, sem estrelas,
só com pirilampos cansados e apagados,
você brilha,
Manuel.
Belo belo.

              Leila Míccolis
Do livro: Poetas 2000, org. Mônica Banderas, Ed. Blocos, 2002, RJ

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MOVI(ES)MENTO


a Mélies e a Lumière
No começo era o Verbo
e a Luz se fez.
Mas ao Homem isto não satisfez;
tanto que, tempos depois,
juntou os dois numa magia sincrética e suprema:
criou o Cinema...
Leila Miccolis

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Identidades


    Papai era,
    mal comparando,
    uma dama da noite:
    volúvel e boêmio
    sumia às vezes
    meses
    (enquanto lhe pagassem tragos
    batia asas).
    E mamãe ficou sendo
    o homem da casa.


                               Leila Míccolis 

domingo, 8 de janeiro de 2012

DIFERENÇA

 
(Ciclo infantil) 
Meu mundo é violento e com razão:
na rua, se eu apanho, é covardia
em casa, se eu apanho, é educação...
Leila Míccolis

sábado, 7 de janeiro de 2012

Demagogia

Nas fases ruins,
nas horas de amargar,
tem quem hipoteca solidariedade,
em vez de dar.



     Leila Míccolis

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

B(E)AUDELAIRE

                                                            Retrato de Baudelaire por Deroy

Baudelaire
est Baudel'aire
et   Baudel'air
pour moi.
                 —  Saravá, mon père!
                                     Saravá!


Leila Míccolis

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Buraco negro



Em vez de se iluminar
o Homem insiste em brilhar.
 
Leila Míccolis
Do livro: "Sangue Cenográfico", Ed. Blocos, 1997, RJ

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

CARTÃO-POSTAL

 
Nutrem-se os subnutridos
com restos servidos
em pirex coloridos.

               Leila Míccolis

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

CLIMA DE MONTANHA


    Não há poluição
    nem manhãs foscas.
    Só moscas.

                    Leila Miccolis 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Confissão


Dizem que o amor é cego,
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelas e as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...
 
                            Leila Míccolis
Do livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...