terça-feira, 24 de janeiro de 2012

HORÁRIO NOBRE

(Ciclo infantil)


         As mães dos meu edifício
         falam assim com seus filhos:
         — "Cuidado pra não cair...
         Se sujar a roupa nova
         eu vou lhe dar uma sova".
         Tem outra espécie, também,
         que sempre se sobressai,
         a que ameaça terrível:
         — "Eu vou contar pro seu pai"...
         Por fim, eu ouço a que diz:
         — "Ah, meu Deus, que mal eu fiz
         pra ter tido este estrupício?"
         Eu então, ouvindo isso,
         me arrisco a uma conclusão
         sem brilho e bem pessoal:
         mãe sorrindo para os filhos,
         só na televisão
         em algum comercial...



Leila Míccolis

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

RECUERDOS DO CEARÁ

Capa de Cláudio Morato

Em 1977, deixei a advocacia para me dedicar a outra “causa” – a literária –, cheia de Ágape, chama do entusiasmo que até hoje não perdi, porque amo o que faço. Logo no ano seguinte, em 1978, Wladyr Nader, da então heroica Revista Escrita (SP), encomendou-me pela sua Editora Vertente, uma antologia com poetisas "não-alinhadas", ou seja, escritoras que não estivessem satisfeitas com a situação do mundo nem com a própria condição feminina. Reuni dez "Mulheres da Vida", título polêmico, próprio para mulheres que estavam na vida, questionando diversos aspectos individuais e sociais. O título, severamente criticado por direitistas severos, por esquerdistas tradicionalistas e até por centristas pseudomoralistas, foi muito bem compreendido pelo público, que o interpretou corretamente, sem conotações depreciativas, como, aliás, eu previra mesmo que assim fosse.

Lancei a antologia no Rio de Janeiro e em várias capitais nordestinas, inclusive Recife e Natal. Quando cheguei em Fortaleza, nenhuma livraria queria aceitar o livro. Estávamos ainda sob o tacão da repressão e os livreiros receavam que a polícia aparecesse e fizesse das suas costumeiras gentilezas: invadisse a loja selvagemente, batesse nas pessoas, rasgasse obras, revirasse todas as prateleiras, instalasse o pânico. Ninguém queria correr este risco, de questionar e/ou desagradar a TFP (Tradição, Família e Propriedade). Para piorar, um jornalista que ouviu cantar o galo, mas não sabia onde (no caso, não lera o livro mas queria parecer bem informado), resolveu escrever que "Mulheres da Vida" era um relato autobiográfico de dez prostitutas. Eitcha! Aí danou-se tudo, fecharam-se de vez as portas de livrarias, pois todas eram muito decentes, de boa reputação e de fino trato.

Liguei para minha amiga Socorro Trindad, em Natal, uma das integrantes do livro (as outras eram: Norma Bengell, Isabel Câmara, Maria Amélia Mello, eu, Eunice Arruda, Aninha Franco, Glória Perez. Many Tabachinik e Réca Poletti). Relatei minha dificuldade, e depois de pensar um pouco ela me sugeriu: "Bom, se estão falando isto de nós e se as livrarias não aceitam comercializar o livro, então lance-o num prostíbulo"... Gostei da ideia. Dirigi-me a uma casa que achei simpática, nas imediações da Praça São Sebastião, e fui muito bem recebida lá. Maria Loura deu-me todas as facilidades para a realização do meu projeto, e, alguns dias depois, autografei o livro no Cabaré Estrela do Oriente.

O que devia ser um lançamento de livro, transformou-se a ser algo diferente, inusitado, com inimagináveis significados simbólicos – uma espécie de manifesto cultural, um ato de veemente protesto, chamando a atenção da mídia para o evento. Resultado: todos os jornais e televisões cobriram a "ousada manifestação cultural" e nunca tive um lançamento fora do Rio de Janeiro com tanta gente (inclusive foi lá que conheci Paulo Veras, saudoso parceiro depois, no livro "Maus Antecedentes"). A intelectualidade em peso esteve presente, e também inúmeros políticos, que hipocritamente "hipotecaram sua solidariedade à nobre causa" literária... Vendi tanto livro que os exemplares que levei não foram suficientes para todos os leitores; acabei vindo com mais de cento e cinquenta encomendas pagas, mesmo os compradores sabendo que só receberiam o seu exemplar quase quinze dias depois, quando eu retornasse ao Rio de Janeiro.

O mais bonito de tudo, porém, foi a atitude da dona do bordel. Ela estava muito contente pelas altas personalidades em seu estabelecimento, é claro, mas estava mais comovida ainda pelo livro em si, por escritoras de nome não terem tido medo de serem "confundidas com elas". Eu raramente vi alguém pegar um exemplar com tanta consideração, com tanto respeito. Também raramente vi alguém ter uma interpretação tão simples e tão adequada de meus poemas. Era uma fase em que eu, propositadamente, queria chocar os bem-comportados, sacudir-lhes os ombros, e não media palavrões para agredir os puritanos. Pois ela, sem se importar com as palavras "de baixo calão" (afinal, costumava ouvi-las todas às noites justamente dos bem-comportados e dos puritanos), atravessou-as com a maior naturalidade e se deteve no cerne da mensagem, que elas conheciam na própria pele: a denúncia da desigualdade de gêneros, o farisaísmo, a opressão, a repressão.

Maria Loura estabeleceu as "medidas de exceção" que achou compatíveis com a ocasião solene: a primeira delas foi a ordem expressa para que nenhuma de suas meninas trabalhasse naquela noite, o que desmontou a imagem que tinham me dado, de que elas fossem extremamente interesseiras e mercenárias. Aquelas, se fossem, teriam aproveitado muito a chance de triplicarem os lucros pela grande freguesia interessada nelas, já que o programa era insólito na cabeça dos homens: compre um livro e leve uma menina... Una o útil ao agradável. Porém todas disseram não. Trabalho, naquela noite, só de garçonetes, servindo as mesas com bebidas e tira-gostos... Depois, Maria Loura continuou me surpreendendo quando não aceitou o percentual da venda do livro, combinado anteriormente. Alegou que o consumo de comes e bebes fora mais do que suficiente, lucrara com isso e, principalmente, com a propaganda; por fim, no final da noite, ainda se sentou com suas meninas e varou a madrugada me contando histórias, de alegria, de dor, de decepção, de esperança, e todas me tocaram profundamente, mudando em muito a imagem que eu tinha da "profissão mais antiga do mundo"....

Tenho um carinho especial ao lembrar-me deste lançamento, e o considero como sendo o melhor que já tive em minha vida.

Ao pensar em Maria Loura e nas mulheres do Cabaré Estrela do Oriente muitas vezes me veio à mente a letra de Chico Buarque de Hollanda, "Umas e Outras", na qual uma freira e uma prostituta cruzam a mesma rua: "Mas toda santa madrugada/ quando uma já sonhou com Deus/ e a outra, triste namorada,/ coitada, já deitou com os seus,/ o acaso faz com que essas duas,/ que a sorte sempre separou,/ se cruzem pela mesma rua/ olhando-se com a mesma dor"... Não se trata de uma comparação, óbvio, porque nenhuma das escritoras era freira, nem “perdidas”; mas, sem dúvida a conexão e a analogia aproximativa são visíveis: mesmo com vidas tão diversas, porém com tantos sentimentos conflitantes em comum provenientes de uma sociedade patriarcal desigual, manipuladora e autoritária, nos reconhecemos plenamente naquela noite, naquela mesma rua, olhando-nos (poeticamente) com a mesma dor e com a mesma com/paixão pelo mundo.

                                                  Leila Míccolis

domingo, 22 de janeiro de 2012

POSIÇÃO


    Injustiça e veneno
    é dizer que só me deito sobre os louros.
    Também sob os morenos...

                    Leila Míccolis

    D
    o livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sábado, 21 de janeiro de 2012

ORAÇÃO INFANTIL

 
(Ciclo infantil)
         
         Quando vem gente conversar com meus pais
         eles não me batem;
         sorriem muito pra mim,
         falam num tom bem baixinho,
         me enchem de tanto carinho,
         não me botam de castigo
         não ralham nunca comigo
         e até minhas traquinadas
         viram "excesso de energia"...
         Por isso, Senhor, dai-me, ao menos,
         uma visita por dia...



                                                        Leila Míccolis

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

NEM FREUD EXPLICA...

 
Apesar de tanta ânsia
só conseguimos nos amar,
à distância...
                             Leila Míccolis

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NAMORO À ANTIGA ou SAUDOSA MALOCA...


Namoro antigo: titia
na sala bordando um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...


Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...


Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.


E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...



                    Leila Míccolis

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Intuição


    Ter nas pessoas
    a confiança dos gatos,
    que fecham os olhos
    e esticam o pescoço,
    na certeza do carinho.

    Leila Míccolis
                                                 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CARNAVAL

 

Foi criança, cresceu,
casou, cuidou da casa, seu marido morreu,
deixou seis filhos,
trabalhou para mantê-los,
perdeu quilos,
mas a recompensaram pelos danos:
agora por três dias, todo ano,
torna-se a Miss-Velhice lá do Asilo.
                    Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1998, RJ

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ESTABILIDADE


Vivemos como casal:
você trabalha demais,
me sustenta,
proíbe isso e aquilo,
exige a casa arrumada,
quer almoço à uma hora,
o jantar às sete e meia,
sobremesas variadas...



Com teus caprichos concordo,
e por vingança, te engordo.



                     Leila Míccolis

domingo, 15 de janeiro de 2012

NO MATO COM CACHORROS

 
Viver no interior de uma cidade nem sempre é viver em um campo. Campo, como o nome diz é campo: "terreno extenso e mais ou menos plano que tanto se pode destinar às pastagens do gado como ao cultivo agrícola" - segundo o Dicionário do Aurélio. É certo que nas cidades do interior ainda há muito mais campos, mas um não pressupõe o outro.
Aqui, em Maricá, podemos dizer que moramos em uma área rural (embora nosso IPTU seja cobrado como área urbana, para que o contribuinte pague mais): a estrada não é asfaltada e há mais bois e cabras no caminho do que gente passando. Também temos boa área para plantar e colher. No entanto, nem tudo é um mar de rosas - aliás, mar é o que não existe por perto, estamos na parte montanhosa de Maricá: há mosquitos, pernilongos, cobras, lagartos e lagartixas, camaleões, moscas, sapos, rãs, pererecas e outros insetos, bratáquios e répteis de maiores ou menores proporções.

A mudança do Rio para Maricá foi difícil, a ponto de eu fazer um livro de poesia "Sob o Céu de Maricá" para exorcisar as calamidades cotidianas da vida campestre... Após oito anos, já vejo a vida no campo com outros olhos, até por causa de nossos animais, que, embora dêem muito trabalho, nos dão também muitas alegrias: são mais de 35 gatos, quase 20 cachorros, além de patos, marrecos, perus, galinhas, porquinhos da índia, pavões, e uma porca (chamada Bolívia). Também existe um gambá, que mora debaixo da escada que vai dar na piscina. Muitas vezes micos nos visitam, pulando entre as árvores, alguns morcegos, bichos-paus (lindos), louva-deus, e, diariamente pirilampos, borboletas (brancas, azuis, amarelas) e, naturalmente, colibris, sempre apressados e nervosos. Um mini-zoológico bastante variado. Aqui, não matamos nenhum animal, nem mesmo baratas, embora Joana, a gata caçadora corra atrás de todos os bichos menores que ela, e, se não conseguimos salvá-los a tempo, era uma vez. Quanto à plantação, temos muitas árvores frutíferas, uma hortinha gostosa com pimenteiras carregadas, bonsais que, plantados na terra, viraram árvores magníficas, e um papiro, de que eu gosto muito, além de congéias, ipês, mulungus, casuarinas (ainda pequenas), e um orquidário - passatempo predileto do Urhacy - com espécies nativas raras, inclusive.

Gosto de Maricá: a natureza tanto na parte do mar quanto na da montanha é exuberantemente bela, e a qualidade de vida é outra - embora a infra-estrutura seja péssima (incrível, porque fica distante de Niterói apenas vinte minutos, e do Rio, apenas a quarenta) e haja também enorme carência de pessoas interessantes (também porque falta teatro, cinema e até internet a cabo aqui na "periferia" - o cabo só vai na área mais central de Maricá). No entanto, aos poucos, os escritores descobrem Maricá - a Simone Salles já mora aqui, o Flávio Machado está vindo também - e mudam, com seus pensamentos a geografia da cidade.

Maricá? A maioria das pessoas da "capital" acha o fim do mundo, e não entende até hoje, como pessoas artistas (leia-se "civilizadas") podem morar no meio do mato (e com tanto cachorro...). Para elas, atravessar quinze minutos de ponte Rio-Niterói e andar mais vinte na estrada é inconcebível, embora levem muitas vezes mais de uma hora para fazer o trajeto da Barra da Tijuca até Ipanema... Ao contrário do que pode parecer de início, esse maior isolamento faz com venham para cá apenas os amigos, para os quais a distância nunca foi obstáculo ou pretexto para se afastarem de nós. Salve portanto Maricá, com seus aprendizados e colheitas-lições diárias de vida.
Leila Míccolis

sábado, 14 de janeiro de 2012

DESCRÉDITO

Se me perguntam:
— “Escrever pra TV, rende?”,
respondo: “Depende
dos créditos”,
— aquelas letrinhas em que aparece
o nome da gente
no começo ou no final,
dependendo do canal.
A gente briga pra tê-los,
pra vê-los nas novelas, seriados
e acaba pirado
porque escritor não tem crédito
nem em Banco,
já que o saldo é sempre manco
e ninguém credita nada.
Ê profissãozinha desacreditada...

                 Leila Míccolis
Do livro Sangue Cenográfico, Ed. Blocos, 1997, RJ

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...