sábado, 1 de setembro de 2012

Meu novo Jornal Literário na web

De uns dias para cá, meu paper li transformou-se em Jornal Literário, com atualizações diárias. É um jornalismo diferente, em que apenas escolho os temas genéricos a serem abordados (culturais: literatura, saúde, ecologia, entretenimento, artes e afins) e a programação do gmail procura e disponibiliza as notícias automaticamente; então, todo dia, o noticiário é sempre uma surpresa, inclusive para mim, que me divirto muito com esta situação, de esperar a próxima edição, um tanto às cegas. Não totalmente: alguma notícia que eu não queira ou que não esteja dentro da linha editorial traçada por mim, posso eliminar, e tenho feito; porém ainda não consigo acrescentar notícias que eu ache interessantes — com o tempo aprenderei. Considero o paper li uma ferramenta bastante interessante, porque ela é direcionada, fornece apenas notícias e informações sobre a sua área de atuação e sobre outras que com ela se interconectam. Se você quiser conhecer, o endereço do meu Jornal Literário é: http://paper.li/leilamiccolis/1308264181

quarta-feira, 18 de julho de 2012

FACE TO FACEBOOK


Eis-me face a face com o Face. Inegável que ele tem sido Não posso esquecer-me de que o Face tem sido importante para certas pessoas (companhia? informação? comunicação?) que um casal paulista registrou o nome do filho de Facebookson, em agradecimento por ambos terem-se conhecido lá (o amor é lindo... embora o garoto, quiçá traumatizado, nunca queira ter filhos na vida). Quanto a mim, resisti por longo tempo a entrar, pelo frenetic show que há nele. Porém estão lá muitos amigos que gostam de conversar pelo Face muito mais do que por e-mail, e decidi participar depois de prestar meu exame de doutorado – o que fiz, exatamente no dia seguinte. Para meu espanto e surpresa, tenho me divertido muito com ele.

Há muito disso: vitrines sem conteúdo, armazéns de frases feitas. Porém até nestas dá para encontrar certa graça, se nos propomos a questioná-las. Outro dia, alguém postou algo do gênero: não seja o sol que brilha, mas o vagalume que ilumina. Comentário meu: “acho que devemos ser os dois, sol de dia e vagalume à noite, porque os brilhos são diferentes”. E pensei: já imaginou só vagalumes de dia? Ia ser muito escuro, igual à noite. (Amo o sol...).

Há também gatófilos e cachorrófilos como eu, então me sinto em casa e tão à vontade que me animei a fazer dois álbuns de fotos: Afetos múltiplos e Eventos inesquecíveis: estes últimos com encontros marcantes, em geral com poetas – tem até Cora Coralina lá: conheci-a em 1982, quando fui a coordenadora do setor de Literatura do Rio no 1º Festival de Mulheres nas Artes (Teatro Ruth Scobar/SP). Aliás, depois que coloquei Coralina, muito mais gente me encontrou no Face. Chamo este fenômeno de brilho por osmose: se você é amigo de quem conhece algum nome famoso, parece que você passa a estar mais perto dessa celebridade. As pessoas “se sentem”. Sentem-se importantes também.

Alguém há de me perguntar: e por quê você quis aparecer ao lado de Coralina: não foi pelo mesmo motivo? Não, o meu foi afetivo, o partilhamento de um momento de grande emoção. Quando vi aquela senhora tão velhinha entrar no Festival (nem sabíamos se ela iria, pois não tinha confirmado a presença) fiquei encantada: ela parecia tão doce quanto os doces que fazia. Caminhava com dificuldades, ajudada por duas amigas. Dei para ela autografar o catálogo do evento, e ela perguntou-me intrigada, sem nem me olhar: - “Você não comprou meu livro?”. Presenteei-lhe com a verdade: “não tenho dinheiro no momento, Cora”. Então ela levantou os olhos muito límpidos, me viu – este instante foi incrível – sorriu para mim (que gracinha!) e disse, como quem faz uma travessura inocente e nova: – “Sabe?, eu nunca autografei um catálogo”... e ficamos conversando um pouco – a fila de  autógrafos era enorme – sobre a “dor e a delícia” de gostarmos de fazer poesia. Depois, ela sugeriu que eu ficasse por ali, perto dela (como se eu pudesse sair... eu estava em estado de transe hipnótico), e de vez em quando, entre uma e outra dedicatória, trocávamos algumas frases, eu e Coralinda.

Falei no início em vitrine mas, em meio a tantas mensagens, observo que a visibilidade pessoal esperada e tão alardeada é um tanto relativa: há que sermos garimpeiros ou entrarmos no Face com o espírito de “caça ao tesouro” ("sem lenço e sem documento", leia-se, sem mapa com pistas); porém, esperta que sou, já sei onde encontrar meus ouros: tenho tido muito prazer em acompanhar as inteligentes postagens do Chico (chequei até a compartilhar uma música através dele), da Ivana, do Zeballos, da Márcia Sanchez, da Leninha, do Braulio Tavares, do Affonso Romano, do Henrique Cairus, da prata da casa – Urhacy Faustino e Mônica Banderas – entre vários outros. Isso me faz pensar no óbvio: o ser humano estraga ou enriquece as redes sociais de que participa. Simples assim.

Leila Míccolis

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Jogamos mesmo fora todo lixo que não presta?



Não sou muito adepta de comentar livros lidos, pois o texto sempre acaba parecendo uma resenha, um resumo, simplificado e superficial. No entanto, mesmo correndo este risco, desta vez quero apresentar para quem não conhece uma obra do francês Michel Serres, filósofo, professor de História das Ciências e membro da Academia Francesa. Chama-se: O Mal Limpo – poluir para se apropriar?  Devo a indicação da leitura deste provocativo texto à jornalista Marli Berg, em uma de suas colunas em Blocos Online. Pelo título percebe-se logo de início que o autor trata de diversos mitos modernos e a forma como o faz é direta, provocante, instigante, fascinante.

Serres mostra que todo animal, pela urina, pelo excremento, pelo sangue e pelo esperma –  conforme o caso –  apropria-se de um local, terreno ou território (que pode ser a territorialidade de um país ou de um corpo). Os cães, os javalis e os gatos urinam para marcar sua passagem; as tribos antropófagas, ao devorarem o inimigo, apossavam-se das qualidades dele – só os guerreiros considerados heróis eram merecedores de tal honraria; nos rituais de sacrifício religioso (ainda hoje) e nas guerras (tradicionais), a terra onde o sacrificado ou o inimigo tomba torna-se sagrada para o vencedor, “legitima-o em sua posse”.

Sujar, no sentido de macular, de marcar presença, pertence ao animal –  ao animal que também somos: a sujeira e a limpeza delimitam a propriedade. Por exemplo: em um hotel (ou motel), após a saída de um hóspede, o próximo a se instalar exige roupas de cama limpas, para que possa apropriar-se e imprimir suas marcas, quaisquer que sejam, mesmo que seja apenas um simples amarfanhado nos lençóis; ninguém se enxuga, também, nas toalhas de outro, ou senta-se em vaso sanitário que não tenha o aviso de que foi higienizado. Não que o escritor preconize uma sociedade ascética – o excesso de limpeza é tão nocivo quanto o seu contrário; não, a direção que ele segue é outra – ao final exporei a proposta dele.

Serres tem o cuidado de observar a Modernidade Líquida (outro livro incrível, do sociólogo Zygmunt Bauman), analisando a poluição suave –  ou seja, sutil –  que mal percebemos de tanto que ela já está impregnada em nosso cotidiano: a poluição da marca e da propaganda –  imagem e som –  que atravessa nosso caminho e entra pela nossa casa. É belíssimo quando ele escreve que os outdoors roubam-nos a paisagem e que o barulho de uma televisão ligada apropria-se da convivência/fala entre as pessoas em um determinado local e até da intimidade do silêncio. Os poluidores sujam o mundo para dele se apropriar. Trata-se de uma expansão desterritorializada, globalizada, sem fronteiras, apropriação que nos faz ter um subjetivo tão poluído quanto o coletivo e o objetivo.

O pensador francês diversifica e amplia o conceito de lixo para inúmeras áreas, e em certo momento chega à indústria automobilística, refletindo sobre suas estratégias e ciladas – tantas vezes imperceptíveis, embora “expostas ao olhar de todos”: [tais setores] “dividem com o comprador a propriedade. São ainda mais espertos, eles ficam com ela!”, pois um carro não anuncia o nome nem o estilo de quem “pensou tê-lo comprado; (...) o que ele anuncia é a marca do fabricante. Pagamos às montadoras o que compramos, mas, de certa maneira, elas ficam com o que vendem. Permanecemos apenas locatários. Somos roubados, mas em troca podemos, enfim, compreender a máxima famosa de Prudhon: A propriedade é um roubo’!”.  E o escritor finaliza, ironicamente, acrescentando que, iludidos, ainda fazemos fila para multiplicar, no sentido de apoiar e fomentar, a publicidade da qual somos vítimas.

O que Serres sugere é encontrarmos o que é próprio de uma sociedade (propre também pode ser traduzido do francês como limpo/limpa, e aqui a ambiguidade de sentidos é importante)), a fim de descobrir o que realmente há nela depois que a desvencilhamos de tsunamis de lixos e de dejetos dos mais variados tipos: industriais, tóxicos, culturais, publicitários, identificadores sociais (carteiras, cartões de crédito, talões de cheques), etc. e tal. Neste contexto atual, de invadir o mundo e ocupar sua extensão, corremos o risco de perder o caminho da hominização, já que vivenciamos inclusive o perigo cada vez maior de sermos locatários do planeta, em vez de o habitarmos de forma responsável, consciente e plena. Então, é o retorno a este processo de hominização que o autor propõe, nem que seja apenas estando atentos ao reconhecimento do lixo que acumulamos e da poluição diária que respiramos (e que nos sufoca) de forma ininterrupta, em diversas áreas, para tentar minimizá-los também dentro de nós. Difícil? Muito. Mas não de todo impossível.

Leila Míccolis

domingo, 27 de maio de 2012

Fui um réptil?

Em criança, nunca me dei bem com brincadeiras do faz-de-conta. Achava um reino um tanto desconfortável, onde a realidade, em confronto com a imaginação, revelava-se frustrante e insuficiente. Para mim, era muito difícil imaginar, nas panelinhas, comidinhas inexistentes, ou então ensinar bonecas mudas, que me olhavam alheias e indiferentes e nunca aprendiam absolutamente nada. Entendo agora que para mim, na época, o faz-de-conta assemelhava-se a certas propagandas enganosas que assistimos hoje na publicidade.

O nunca encenar “teatrinhos” na infância possivelmente marcou muito a minha postura diante da vida, fazendo-me distinguir no dia a dia fantasia da realidade, não para  dicotomizar-me, mas para aprender a trabalhar com os diversos ângulos de mim, simultaneamente: eu e meus múltiplos. Nem sempre é fácil na vida real saber onde acaba o “se” e onde começa o “agora”, talvez porque a realidade, com suas diversas interpretações, pode ser tão fluida quanto a fantasia. No entanto, ciente dos meus mundos paralelos, acabei evitando cair na armadilha de protagonizar papéis na vida real, me tornando uma personagem de mim mesma.

O fato inconteste é que sempre preferi o diálogo com os livros. Eles me mostravam, por exemplo, o habitat dos peixes, cheio de cores, formas e magia. Como eu adorava o colorido mundo submarino com seus animais e sua flora exótica. Antes mesmo de saber ler, eu me deliciava com as ilustrações, imaginando histórias das profundezas abissais. Isto era bem diferente do mero faz-de-conta. O oceano existia, os peixes também, e eu apenas inventava aventuras. Os livros me revelavam o mundo real, enquanto o faz-de-conta me soava como um palco, em que só se encenava monólogos. A ficção, portanto, era uma forma de eu própria transitar pelos universos e não de moldá-los à minha imagem e semelhança. Esta diferença de perspectiva fazia muita diferença. Sempre fez. Nas fotos coloridas havia diversos espécimes de animais, inclusive a tartaruga marinha. Pronto: cheguei onde eu queria.

Falando no facebook sobre meu micro, lento que nem tartaruga, revelei ao Chico Abelha que minha relação com elas era muito pouco amistosa, digamos até conflituosa. Então ele perguntou: “como analisaríamos uma mulher que adora gatos e cachorros, mas tem horror crônico a tartarugas...? rsrsrssrs! freud explicaria?” Devidamente instigada, fiquei de escrever sobre  o assunto: a rara exceção do meu amor aos animais. Não se trata porém de desamor, é bem mais complexo: algo me incomoda profundamente nelas e, ao nos depararmos frente a frente, face a face, olho a olho, ocorre de imediato o processo atração x rejeição: elas correm (maneira de dizer) em minha direção e eu corro em direção contrária a delas. Não me importo com o tamanho: mesmo que você me apresente a mais meiga, suave e menor tartaruga do mundo na palma de sua mão, provavelmente me sentirei ameaçada. Lembro-me de que, uma vez, visitei alguém que tinha um cão feroz e uma tartaruga no quintal, e quando a dona da casa me disse: – “um momento que vou prender o cachorro”, eu pedi: – “não, por favor, prenda apenas a tartaruga”... A gargalhada foi geral, porque se tratava de uma tartaruga minúscula, “inofensiva” segundo sua dona; mas só me senti segura com a tartaruga presa no banheiro – nem preciso dizer que minha visita demorou o mínimo possível para não estressar a tartaruguinha.

Volto ao início: mentira, invenção, teatralização, fantasia, mesmo sendo bem difícil às vezes de perceber a diferença, elas ficam muito claras se as transponho para  minha ligação (des)afetiva com as tartarugas. Vou dar exemplos: mentira é dizer que amo tartarugas. Invenção seria alardear que salvei alguma de morrer devorada por um tubarão; que tirei alguma foto sorrindo acariciando o casco de alguma delas, é pura teatralização (inclusive, se virem alguma fotografia assim, saibam que provavelmente ela foi editada...); e, por fim, trata-se de fantasia quando pratico nado de peito (o tipo de estilo que eu mais gosto) e me sinto como se fosse uma tartaruga marinha, o que ocorre frequentemente. E aí realmente entra Freud, meu caro Chico: até meu próprio signo capricórnio (a cabra marinha) indica que devo ter vindo do mar (meu sonho recorrente é sempre com ele) antes de pisar na terra. Não que eu queira fazer aqui nenhum tipo de regressão, mas pode ser até que em alguma encarnação passada, através da metempsicose transmigratória, eu tenha sido uma tartaruga que acabou virando sopa... (não entro em hipótese alguma em restaurantes que pescam lagostas ou peixes vivos, tipo: pesque e pague); daí se explicaria o total incômodo que sinto ao ver uma tartaruga – revivo a dor ancestral da profanação: ser caçada, morta, esquartejada e comida publica e impudicamente à mesa? – e também minha enorme resistência em sentir prazer de degustar quaisquer tipos de “frutos do mar”..

Leila Míccolis. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Recentes entrevistas comigo:
  • No Youtube, entrevista para o programa de televisão Imagem da Palavra,  entrevistadora: Guga Barros

http://www.youtube.com/watch?v=uO4iBsFDwy4 - 1ª parte

  • No blog da famosa revista Escrita (agora digital), entrevistador: Wladyr Nader

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma coruja pousou em minha defesa de tese

No dia 20 de março obtive meu título de Doutora em Ciência da Literatura / Teoria Literária. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, a coroação de muito esforço e dedicação. Para mim, um acontecimento realmente histórico, em que pude contar, na Banca, com a presença de cinco grandes representantes do pensamento acadêmico brasileiro. Foi uma espécie de prêmio, de consagração, de reconhecimento de uma vida praticamente inteira dedicada amorosamente à literatura. Um enorme turbilhão de emoções tomou conta de mim, desde o branco inicial pela tensão (nunca tinha sentido um branco antes na minha vida, é devastador), até uma presença inesperada, repleta de significantes e significados: uma linda coruja (vivo símbolo da sabedoria) que veio me prestigiar: ei-la silenciosa e discreta pousada na porta do corredor da UFRJ, a apenas dez passos da sala do meu exame, observando, meditando. Incrível? Fantástico? Mágico? REAL.


E, abaixo, a banca examinadora, meus queridos e amados professores doutores da UFRJ:


Da esquerda para a direita: Ana Alencar, Tatiana Ribeiro, Luiz Edmundo Bouças Coutinho, Henrique Cairus, Celina Mello e Rosa Gens.

Realmente sou muito muito muito privilegiada, e só tenho a agradecer a vida por tanto tipo de alegrias simultâneas.

Sim: e agora estou no Facebook: http://www.facebook.com/leilamiccolis

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

POESIA COMENTADA


Conheci Paulo Leminski em um lançamento na livraria Muro, onde havia sempre noites de autógrafos coletivas, na época; em uma dessas noites de 1980 Alice Ruiz estava lançando no Rio seu livro Navalha na Liga. Eu já me correspondia há mais ou menos um ano com ela (por carta mesmo, manuscrita, posta no correio, essas coisas antigas...) e confirmei minha presença. Como sempre o local estava repleto, mal se podia andar, perguntei a diversos amigos onde estava Alice, mas todos só me apontavam para o Paulo, cercado de admiradores. Sentei-me conversando com algum poeta e pensei: deixa diminuir um pouco a multidão que talvez eu a encontre mais fácil. No meio da conversa, eis que chega alguém para mim e diz: — Leila Míccolis? Sou seu fã. Para meu espanto era o próprio Paulo. Respondi-lhe, rindo: — eu também, só que hoje estou aqui principalmente para conhecer sua mulher... E ele, simpatissíssimo: — vamos, eu te levo até ela... Foi assim que conheci o grande casal de poetas. Eles me convidaram para ir no dia seguinte até o apartamento em que estavam hospedados, e a partir daí nasceu uma amizade um tanto longínqua (eles moravam no Paraná), mas muito forte entre nós três. Várias vezes Paulo citou-me em suas entrevistas e artigos (eu até hoje cito-o sempre: "vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia") e estivemos juntos em diversas mesas de debates literários, o que também acontece com Alice.


O  poema abaixo para mim é uma pérola, das muitas que Paulo escreveu: ele é um dos raros autores em que a forma não limita o conteúdo de seus poemas, ao contrário, dança com ela. Conseguia o poeta a mágica de brincar com a assonância das palavras, sem que isto afetasse a reflexão séria sobre o tema proposto. Os sons deslizam pelo poema, fluindo com extrema facilidade. Do livro Caprichos e relaxos (Brasiliense, SP, 1983) escolhi estes versos (poderia ter optado por diversos haicais belíssimos), também pela dificuldade de se encontrar ângulos diferentes dentro de um tema universalmente tão abordado como o sentimento amoroso. Eis uma lírica sem o exacerbado sentimentalismo romântico, com suas metáforas açucaradas; eis uma lírica que adapta a conhecida tese científica de Lavoisier e inteligentemente a desloca e a aplica ao cotidiano de todos nós.


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

CAMADAS

Ser livre não é manter-se
intocável, sem entregas,
nem se dar também, às cegas,
a tudo o que nos agrade.

Ser livre é viver a idade
que sente o nosso querer,
é viver conforme a vida
é sobretudo viver.

E viver é mergulhar
para emergir com o submerso,
ampliando, a cada dia,
os limites do universo.

          Leila Míccolis

Do livro: "Sangue Cenográfico"

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Da farsa ao fogão

Desconheço o que é ser Cinderela,
mas conheço muito bem
como se sente uma abóbora...

       Leila Míccolis



Do livro: Sangue Cenográfico

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da primeira novela a gente não esquece

Imagem do logo da novela Mania de Querer, levada ao ar pela TV Manchete,
de setembro de 1986 a março de 1987

Eu estava nervosa, uma pilha. Embora ninguém colocasse nestes termos, eu sabia perfeitamente que aquele seria um teste, não para passar de ano, mas para mudar o curso do rumo de minha vida, talvez provisório-definitivamente... Pela primeira vez eu ia escrever para a televisão com créditos na tela. Isto, se fosse aprovada. Óbvio.

Lá fomos nós: eu e meu medo. Tocamos a campainha, Silvan Paezzo nos atendeu, com olhar sisudo, convidando a entrar; finalmente, eu estava diante do "monstro sagrado" da minha juventude. Eu tinha lido todos os seus romances críticos, violentos, entre fascinada e horrorizada, e, até hoje, amo-os profundamente. Também foi dele a única novela que acompanhei, antes de escrever para a TV. Lembro-me de que Juca de Oliveira fazia greve de fome para sensibilizar a heroína, sua bem-amada, e, depois de conseguir tê-la em seus braços, com tanto sacrifício, ele morria no último capítulo, vítima de anemia. Só mesmo um grande autor seria capaz de uma ousada e perigosa reversão de expectativa desse tipo. Pois era diante dele que eu estava...

Em poucas palavras Silvan me colocou a par da situação: precisava de uma colaboradora para acabar "Mania de Querer" (1987), pois, por problemas internos, mais da metade do elenco tinha saído; precisava então refazer a sinopse, pois a novela era praticamente outra, precisava mudar até os rumos da trama, devido à debandada de atores. Perguntou-me se eu tinha experiência em TV e respondi que só fizera um Caso Verdade, comprado pela Globo, através de Henrique Martins, mas que o seriado não tinha sido exibido, por causa da censura prévia, o tema era muito forte (barriga de aluguel) para o horário da tarde. Ele foi durão: "– Saber que você escreve bem, eu sei, todos sabem; mas, como não li nenhum roteiro seu, preciso ver seu estilo. Me escreve aí a seguinte cena: uma mulher bonita está malhando, sozinha na academia, quando entra o ex-namorado, agarra-a e transa com ela à força". Pensei de imediato: ele tinha que começar logo com um estupro?...

Lembrei-me, porém, da "Época dos tristes", "Diário de um transviado", "Av. Copacabana 389 apt 801", "Santa Rosinha do Mangue", "Madame Satã" e achei que ele estava sendo coerente, seu pedido fazia sentido. Caprichei então, carreguei nas cores para ser tão realista e forte quanto o "Mestre". Quando acabei, ele leu, franziu o cenho e disse: – "Bom texto, mas muito pesado, principalmente partindo de uma mulher"... Senti uma incômoda sensação de "déjà vu", pois já ouvira muito a variante desta frase com relação a minha poesia. Só que, partindo dele, eu não esperava. Rapidamente levantei-me para ir embora, achando que todas as minhas chances tinham ido por cena abaixo, e lhe respondi, de forma um tanto brusca (pois queria sair dali o mais rápido possível):  – "Desculpe, Paezzo, eu não sabia que você queria um estupro leve". Levantei-me já pronta para sair e ele me disse em seu tom seco: – "Senta aí. "Está contratada".

Até hoje não sei se a decisão dele foi motivada pelo que escrevi ou pelo modo com que reagi. Sei que nos entendemos bem. No último dia de trabalho, levei seus livros e pedi que os autografasse. Os exemplares estavam velhos, amarelecidos, com a capa quase despencando, e cheios de anotação. Surpreso, ele folheou-os: "– Esses realmente foram muito lidos". Confirmei: – "Foram. Para mim, você é um dos melhores romancistas deste país". E complementei logo, já que eu sabia que ele não me perguntaria, mesmo que desejasse muito saber a resposta: – "Não lhe falei isto antes, porque eu não queria que minha admiração interferisse na nossa convivência profissional, nem que você pensasse que eu estava te elogiando por puxa-saquismo". Ele emocionou-se. Sei disso porque, pela primeira e única vez, ganhei dele um tímido sorriso. E este, eu tenho certeza, não foi pelo que eu lhe dissera, mas pela capacidade, que sempre tive, de surpreendê-lo.

                                         ***

Eu terminara esta crônica no parágrafo acima, pois nunca mais o vi depois daquele dia e sabia que ele falecera no ano 2000 – Mania de Querer fora seu último trabalho para a televisão. No entanto, há alguns anos, o filho dele entrou em contato comigo (eu o conheci quando ele tinha dois ou três anos de idade), através de uma rede social e me fez uma grande revelação: – "Meu pai falava que você tinha sido a melhor parceira de toda a carreira dele; ele tinha enorme admiração por você". Ao saber disso, pensei: se em vida sempre surpreendi Silvan, agora ele fizera o mesmo comigo – uma bela reversão de expectativa, que também me fez sorrir timidamente emocionada.

Leila Míccolis

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ZOOM

O vento quando se enjoa
de juntar flores e feixes,
percorre alegre a lagoa
fazendo cócega aos peixes...



               Leila Míccolis

Poema constante do projeto CeluLer - poesia diária por telefone

(Foto extraída do site: http://cliqueambiental.blogspot.com/2011/02/lagoa-do-peixe-um-paraiso-de-aves-aguas.html)

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...