Tive o prazer de conhecer o livro Fábulas para adulto perder
o sono, quando participei do júri do Concurso Nacional de Literatura Cidade de
Belo Horizonte, este ano. Como o título sugere, trata-se de uma poesia
provocativa, inquieta, muitas vezes incômoda e cruel, como a realidade
cotidiana. Fiquei muito impressionada com a ousadia da autora (pelo menos o
pseudônimo sugeria ser voz de mulher, embora nem sempre isto seja comprado ao
final, já que muitos autores colocam o nome da filha ou da esposa no pseudônimo),
que não se intimidava com desfechos violentos, sendo capaz de levar até as suas
últimas consequências o desenvolvimento de sua ideia:
Os Três Porquinhos
Decepcionados com
Um mundo onde
Ou você come
Ou é comido
Os três porquinhos
Deliberaram
Sair da pocilga
À noite
Entraram na casa
E assaram os donos:
As maçãs nas bocas.
Após o julgamento, quando pude conhecer a identificação dos
concorrentes, vi que se tratava realmente de uma mulher: Adriane Garcia.
Desde seu livro, eu poderia transcrever inúmeros outros
poemas que me fascina(ra)m, como Romeu e Julieta, Pinóquio, Branca envelhece na
neve, Diamante, E o rato roeu a roupa…, Bela Acordada, e tantos outros textos
de uma poesia que traz para a
pós-modernidade fábulas e mitos transmitidos de geração a geração,
transpondo-os para os tempos atuais, com aguçado senso crítico. O conjunto da
obra, muito bem urdido, lembrou-me os
sangrentos e macabros contos infantis originais medievais, antes de serem
adaptados por Andersen e os irmãos Grimm que lhes adocicaram e lhes deram
finais felizes, segundo o historiador cultural Darnton. Uma obra bem dentro da
volta do trágico nas sociedades contemporâneas. Porém, para não me estender
demais, transcrevo apenas mais um poema incrível, que fala das potencialidades
pessoais que todos temos e que tantas vezes usamos inabilmente, desastrosa e
desastradamente…
Desastrada
Tenho uma varinha do condão
e uma marca de nascença num braço:
Quero e acontece.
Só eu percebo magia
Enquanto sorvo a sopa.
Meu feitiço é lento:
Às vezes, contra a feiticeira
Sempre, tarde demais.
Para minha alegria, este livro acaba de ganhar a Segunda
Edição do Prêmio Paraná de Literatura, na categoria poesia, e eu aplaudo,
porque Adriane Garcia é uma das grandes revelações para mim neste ano de 2013.
Quem quiser conhecer mais a obra dessa mineira, ela está no Facebook, quase
diariamente postando seus versos, tantas vezes desconcertantes, desnorteantes,
e escandalosamente belos.