terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma casa no campo...

Sabe aquela música “Eu quero uma casa no campo”, do Zé Rodrix e do Tavito? Pois eu nunca quis. Sempre fui agitadamente urbana, e vir para Maricá, há doze anos, não foi opção, foi solução (que eu supus temporária) para nossa complicada situação financeira: sair de aluguel, condomínio, gastar menos, na época. Viemos para cá por questão de sobrevivência, apenas. Nunca pensei em morar no interior, em ter porco, cavalo, galinha, peru, marreco, porquinho da índia, coelho, ovelha e cabra, bromélias, cactos, gás de bujão e água de poço. Gostava do cheiro de gasolina e da vida agitada a mil por hora. Aqui, a quietude impera: a ruazinha  não-pavimentada também é pouco movimentada: nem carteiro  passa. O “êxodo” rural ainda coincidiu com uma série de rompimentos emocionais, o que dificultou e tornou mais lenta a minha adaptação.

O começo abrupto desta nova fase foi terrível, pois era uma casa que, de habitável, só tinha a sala, e assim mesmo sob um telhado que parecia ter dificuldades em se manter no lugar; havia apenas a estrutura arquitetônica, muita pedra, e o chão era de terra batida. Também não havia árvores, e o fornecimento de energia elétrica ainda era bem mais precário que hoje... Um desafio e tanto. A primeira vez que entrei na construção inacabada, vi sair um monte de morcegos de um cômodo: era ao mesmo tempo aterrorizante e fascinante: eles voavam em “xis”, como se fossem os raios lasers que vemos em filmes de assalto a bancos, nos cinemas... Foram tempos difíceis que exorcizei fazendo um livro artesanal, praticamente inédito, chamado: “Sob o céu de Maricá”, em que falava principalmente de moscas e outros insetos não-identificados. A única distração destes primeiros tempos era eu, Urhacy e Mônica nos reunirmos em torno das fogueiras que fazíamos diariamente. Esses eram momentos verdadeiramente mágicos.

Maricá não é tão longe assim do Rio (do Fundão, onde ainda faço meu Doutorado na UFRJ, levo trinta a quarenta minutos); a distância de uma hora de estrada, porém, me “obrigou” a ficar muito mais seletiva: compareço pouco a lançamentos de livros, eventos culturais e badalações do gênero. Com isto, talvez, tenha adquirido fama de “distante”, ou de “esnobe”. Dá-se, também, que para o pessoal da capital, ter que atravessar a ponte Rio-Niterói é quase como chegar em outro planeta. Então, quando compareço a algum lugar, provavelmente como revide, pensando que me agridem, há sempre os que me perguntam se me aposentei, por estar morando no mato... Rio e cito o começo do poema do Alberto Cunha Melo chamado Um cartão de visita: “Moro tão longe, que as serpentes / morrem no meio do caminho. / Moro bem longe: quem me alcança / para sempre me alcançará”. 

Cunha Melo termina este seu belo poema, dizendo: “Nada será fácil: as escadas / não serão o fim da viagem: / mas darão o duro direito / de, subindo-as, permanecermos”. Sim: é  justo esta sensação de permanência que me habita. Hoje, amo este lugar e, apesar dos inúmeros problemas relacionados principalmente com uma péssima infraestrutura local, não gostaria de morar mais na capital, por vários motivos. Entre eles, cito alguns: lá não tem esse ar puro, este verde nos rodeando por todos os lados, este espaço amplo para conviver com animais, estas noites estreladíssimas, esta lua absurdamente linda, esta adorável piscininha, esse orquidário, essa natureza exuberante, estes pirilampos, estas borboletas coloridas, este paraíso terrestre sempre ao alcance do embalo de nossa rede...

A mudança para o “sertão” detonou transformações bastante radicais em meus valores, em minhas perspectivas e até em meu modo de encarar problemas, porque antes eu vivia sem noção de certas estruturas; agora que eu sei como se ergue uma parede, para que serve a argamassa, de quê é feita uma pilastra, sei também como podemos ficar verdadeiramente alegres vendo a primeira torneira da casa funcionar, jorrando água. Simples assim. Viver aqui me fez valorizar a vida a partir de cada gesto e de cada objeto que antes eu só notava quando me utilizava dele. Deixei de prestar atenção às funções das coisas para perceber melhor a substância das quais elas são feitas. E os amigos que servem-se de uma para nos visitarem. Realmente, uma grande transformação, ocorrida de dentro para fora. Com isto, não só a casa foi erguida a partir do zero, como eu também. E é por isto que para mim, hoje, Maricá é sinônimo de colheita. 

Leila Míccolis


domingo, 23 de janeiro de 2011

Surfando o estresse...

Há algum tempo, uma artista famosa declarou que, ao fazer seu check-up anual, "descobrira" através de seu médico que estava com estresse... Que me desculpe a beldade, mas não era então um estresse tão grande assim. Devia ser um estressinho de nada, já que, o de derrubar-quarteirões, a gente diagnostica por conta própria; e, já que este esgotamento (físico e/ou emocional) provoca um considerável aumento de adrenalina, resolvi fazer, neste verão, um minitutorial, baseado em meu autoaprendizado, para surfar o estresse, no intuito de tentar evitar sermos ou derrubados por “caixotes”, ou bebermos muita água salgada, ou entrarmos no redemoinho das ondas gigantes.

Primeiro sinal (ou sintoma): começa-se a perceber o cansaço a partir dos inocentes barulhos diários, que de repente aumentam de volume, irritando o pavilhão auricular. O liquidificador, então, enlouquece, e as vozes humanas agridem. Tenta-se fugir deles, mas sempre esbarramos com a televisão, com o latido do cão do vizinho, com o martelo, com o ranger da porta empenada da sala.

A luz também passa a incomodar. Como os gatos, você fecha os olhos para diminuir a claridade, e fica-se contanto os minutos para chegar a noite, porque ela parece mais amena, serena e silenciosa, certo? Errado. Quando você se deita, a insônia dialoga com você o tempo todo, e é realmente inacreditável como ela tem assunto... Quando ela para, já é quase hora de você se levantar, mais esgotado ainda.

O bom-humor tende a hibernar, até porque ser “alegrinho” nos tempos atuais é desprender enormes somas... de energias. Você começa a não querer encarar perguntas difíceis, embora a toda hora formule questões complexas, do tipo: por quê toda rosquinha tem um buraco no meio? Por quê ainda não inventaram uma rede com controle remoto? Naturalmente não convém tumultuar muito o cérebro tentando achar as respostas; e procure também não pensar obre a morte da bezerra, porque, neste caso, além de estressado, você pode ficar deprimido. Mude o foco rápido, antes que seja tarde demais.

Exaurido, você pensa em largar tudo e viajar, para não fazer nada; mas, ao mesmo tempo, trabalha cada vez mais, até para poder arcar (algum dia) com a realização do seu sonho de viagem...

Na hipótese de você ser um estressado agressivo, cuja reação é a de brigar com a própria sombra, cuidado: é bom não descontar nos pratos ou enfeites da casa, pois, passada a crise aguda, você vai é ter uma recaída por conta (literalmente) dos prejuízos. O melhor é respirar e contar até 10. Se estiver muito fatigado, tente ir até 5 (porém menos de 3 nem vale a pena iniciar a contagem).

Outro sinal evidente de esgotamento é quando o estressado passa a arranjar as desculpas mais mirabolantes para não sair de casa, mesmo que elas soem absurdamente falsas; não importa, qualquer coisa é melhor do que a ameaça de movimentar-se em direção à rua. Você resiste a ir à praia, festa e cineminha, mas se magoa dos outros irem sem você, tão animados e bem dispostos. Neste momento provavelmente vai achar que há algo de errado com você, talvez falta de alguma vitamina... Você pensa então em reagir, energizar-se com saudáveis sucos, por exemplo; mas, logo no primeiro impulso, ao abrir a geladeira e ver a manga ou o abacaxi, desiste no ato, imaginando a imensa trabalhalheira que será ter de descascá-los.

Caso fique em casa, numa boa, se o estressado em questão é dado à literatura, aproveitará os erros de digitação, as trocas de letras das palavras, fato comuníssimo nas épocas de maior fadiga, e as transformará, posteriormente, em textos cheios de “sacadas geniais”... É o lado criativo do estresse.

O estressado não quer papo, não tem a menor vontade de conversar; aliás, como já disse de início, as vozes humanas de repente lhe soam estranhas, e é comum ele flagrar-se olhando para a boca do seu interlocutor, como se assistisse à mímica de um playback. Como você não é do tempo do cinema mudo, a primeira vontade é a de pedir para a outra pessoa calar-se, mas, ainda bem que se contém a tempo, para não ser chamado de mal-educado. De qualquer forma, suas respostas são lacônicas e secas, não por estar zangado, apenas por economizar palavras, e portanto fôlego.

O estressado sente-se febril por dentro e gelado por fora, exatamente o contrário do que deve se sentir um sorvete, com calda quente por cima. Talvez por isso, meio-termo é coisa que ele desconhece. É drástico, sem meias-medidas. Com ele, é tudo ou nada. Ou 8 ou 80. Ou dá ou desce. Nada de nem tanto ao mar nem tanto à terra. Está muito mais para "não vem que não tem" do que para "conversando é que a gente se entende". Este seu modo brusco pode confundir as pessoas, mas é melhor não explicar-se na hora, porque pode acontecer da emenda ser pior do que o soneto – como já nos ensinou Bocage.

Por fim, um dos sintomas mais característicos do estressado é a divagação, a mente passeia, viaja, vai longe. Às vezes, a desconcentração é tão grande, que de repente o indivíduo flagra-se mexendo no mouse, movimentando-o na tela para baixo e para cima, de lá para cá, perguntando-se o que estava fazendo ali, diante do computador. Calma, nada de pânico: mesmo que demore um pouquinho, aos poucos a memória volta e você se recorda afinal, triunfante, de que estava tentando escrever uma  crônica...

Eu não sei se este minitutorial pode ajudar alguém a se equilibrar em cima de uma prancha (ou melhor seria dizer tábua de salvação?) em movimento. Espero que sim, que ele, pelo menos, dê maior leveza a este perigoso esporte que é o viver. Porém, se ele não serviu nem para você esboçar um imaginário sorriso, sugiro, se os sintomas persistirem, consultar um médico, que provavelmente diagnosticará o que você já estava cansado (literalmente) de saber... 

Leila Míccolis


domingo, 9 de janeiro de 2011

terça-feira, 9 de novembro de 2010

POESIA COMENTADA


Acontece que estou com saudades de fazer postagens nesta seção (desde fevereiro sem nada ser acrescentado) e dá-se, também, que amanhã, 10 de novembro, falecia em 1972, no Rio, o poeta piauiense Torquato Neto. Unindo ambas as vontades, transcrevo, homenageando-o, uma das letras que mais me impressionaram no disco Tropicália, de Caetano. Só conhecia interpretado por ele; hoje, porém, procurando na Internet, ouvi-a por Nara Leão (vejo que Clementina de Jesus também gravou esta composição), e achei o arranjo musical muito sugestivo, além da própria Nara — uma atração à parte. Quem quiser ouvi-la, clique em: http://letras.terra.com.br/nara-leao/331159/
O texto poético constitui-se em uma belíssima construção metafórica das relações familiares cada vez mais robotizadas, indiferentes e distantes no nosso cotidiano. Acho uma verdadeira pérola, uma jóia rara, e é por isto que a compartilho com vocês.


-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-


DEUS VOS SALVE ESTA CASA SANTA 
Torquato Neto e Caetano Veloso


Um bom menino perdeu-se um dia 

Entre a cozinha e o corredor 
O pai deu ordem a toda família 
Que o procurasse e ninguém achou 
A mãe deu ordem a toda polícia 
Que o perseguisse e ninguém achou 

Ó deus vos salve esta casa santa 

Onde a gente janta com nossos pais 
Ó deus vos salve essa mesa farta 
Feijão verdura ternura e paz 

No apartamento vizinho ao meu 

Que fica em frente ao elevador 
Mora uma gente que não se entende 
Que não entende o que se passou 
Maria amélia, filha da casa, 
Passou da idade e não se casou 

Ó deus vos salve esta casa santa 

Onde a gente janta com nossos pais 
Ó deus vos salve essa mesa farta 
Feijão verdura ternura e paz 

Um trem de ferro sobre o colchão 

A porta aberta pra escuridão 
A luz mortiça ilumina a mesa 
E a brasa acesa queima o porão 
Os pais conversam na sala e a moça 
Olha em silêncio pro seu irmão 

Ó deus vos salve esta casa santa 

Onde a gente janta com nossos pais 
Ó deus vos salve essa mesa farta 
Feijão verdura ternura e paz

domingo, 12 de setembro de 2010

PRÊMIO BLOG DE OURO



Recebi de Clarice Villac o selo acima, e agradeço muito a ela — poeta, ecologista, defensora dos direitos dos animais, alguém delicadíssimo —, uma pessoa que eu estimo muito. Como esta gentileza pode (e deve) ser estendida para dez outros blogs, ei-los indicados abaixo, esperando que vocês os visitem também, porque todos são ótima leitura:

domingo, 27 de junho de 2010

"Presença literária 2010"


Inspirado na obra "Livros", de Van Gogh, a escritora Graça Graúna criou o SELO  PRESENÇA LITERÁRIA 2010 para expressar sua "grande admiração e gratidão às pessoas que expressam a difícil arte do dialogar por meio da literatura", e Márcia Sanchez Luz, previa e devidamente autorizada por Graça, estendeu o Prêmio a este blog. Aceito com prazer esta linda homenagem e agradeço muito a ambas, não só pela amizade, carinho e consideração com que sempre distinguiram meu trabalho, mas pelo muito que as duas  também têm feito pela divulgação da literatura nacional. 


No Yubliss, minha coluna desta quinzena é sobre fogueiras — vocês já repararam como cada vez mais estamos escrevendo menos sobre temas juninos? O texto chama-se
"Colocando mais lenha". Se quiser pular esta fogueira comigo venha, comente, e  não deixe de assinar seu nome.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Esperando (literalmente) sentado


Meu novo texto no blog do Yubliss é sobre escritores e divulgação. Quem se interessar pelo tema, vá até lá, dê uma olhada, deixe sua impressão, e seu nome:
http://www.yubliss.com/blog/5993/post/7405

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Depois da tempestade virá mesmo a bonança?

maricasobagua01
Este é um dos “pontos nobres” do centro de Maricá.
Sobre as chuvas que fustigaram a cidade esta semana, me leiam no Yubliss:

http://www.yubliss.com/blog/5993/post/7188

terça-feira, 6 de abril de 2010

É plágio ou não é?

 
Outro dia, a escritora Isabel Furini me enviou por e-mail poemas de dois autores e me perguntou se, no meu entender, um deles poderia ser considerado plagiador do outro. Li e respondi que não, embora um deles achasse que tinha sido plagiado, porque ambos falavam de forma romântica do mesmo tema: amor. O gênero (lírico) era comum a ambos, mas esta era a única semelhança  entre os dois. Isabel então me disse que estava havendo muita confusão neste sentido, e me deu idéia de escrever um texto a respeito. Não vou falar como advogada, pois era outra a minha área jurídica  quando exerci a profissão. Porém vou me basear em uma interpretação que me parece sensata, fundamentada na própria Lei dos Direitos  Autorais.

É preciso deixar logo bem claro que as idéias avulsas não são protegidas legalmente. O que se preserva é a obra literária, ou seja, o texto em sua literariedade, em seu conjunto de atributos literários. É a forma literária (a forma do autor expressar-se), repita-se, que o EDA (Escritórios de Direitos Autorais) protege do plágio. Como explica Hermano Duval, no site da Biblioteca Nacional, “a idéia é comum, pertencendo a todos” <http://www.bn.br/portal/?nu_pagina=32#11>. As idéias e a circulação delas são livres. Porém, se um autor copia um ou mais versos feitos por outrem sem dar a este os devidos créditos, isto é plágio, e o mais grave não é nem mais a cópia  em si, mas a adulteração da autoria.

A meu ver, portanto, e também na abalizada opinião do EDA, não basta que dois autores falem sobre um único tema para um ser acusado de plagiar o outro. É preciso que haja imitação do conteúdo, e naturalmente de um conteúdo literário (elaborado artisticamente,  com características originais e próprias); não apenas a mera repetição do tipo “chove lá fora”, “o amor é lindo”, “mãe é uma só”, frases comuns a muitos e que, sem qualquer tratamento artístico, não contêm nenhum estilo nem forma literária, não configurando então o plágio.

Isabel ainda me colocava uma questão interessante: uma prosa poderia ser considerada  plágio de um poema ou vice-versa? Bem mais difícil, mas é possível sim, se, por exemplo, o plagiador colocou em versos um trecho da prosa de outro, ou se um prosador copiou alguns versos de um poema alheio, desfazendo o formato linear poético.

O plágio é a reprodução praticamente igual (ou flagrantemente semelhante) de parte significativa de uma obra artística original, mudando-lhe a autoria. Não constitui plágio ignorar a autoria, porém  a  divulgação da famosíssima figura do "autor desconhecido" pela Internet é, em minha opinião, uma espécie de burla (mesmo quando inconsciente e sem má-fé) à lei, já que por trás de um anônimo desconhecido existe sempre um autor que foi prejudicado, no mínimo, no direito de ter o seu nome vinculado ao seu texto — sem esquecermos de que um autor também tem o direito de permitir ou vedar a divulgação de sua produção, no todo ou em parte, o que lhe é negado quando, sem poder ser reconhecido e consultado, a obra corre à sua revelia.

Leila Míccolis

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...