quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma coruja pousou em minha defesa de tese

No dia 20 de março obtive meu título de Doutora em Ciência da Literatura / Teoria Literária. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, a coroação de muito esforço e dedicação. Para mim, um acontecimento realmente histórico, em que pude contar, na Banca, com a presença de cinco grandes representantes do pensamento acadêmico brasileiro. Foi uma espécie de prêmio, de consagração, de reconhecimento de uma vida praticamente inteira dedicada amorosamente à literatura. Um enorme turbilhão de emoções tomou conta de mim, desde o branco inicial pela tensão (nunca tinha sentido um branco antes na minha vida, é devastador), até uma presença inesperada, repleta de significantes e significados: uma linda coruja (vivo símbolo da sabedoria) que veio me prestigiar: ei-la silenciosa e discreta pousada na porta do corredor da UFRJ, a apenas dez passos da sala do meu exame, observando, meditando. Incrível? Fantástico? Mágico? REAL.


E, abaixo, a banca examinadora, meus queridos e amados professores doutores da UFRJ:


Da esquerda para a direita: Ana Alencar, Tatiana Ribeiro, Luiz Edmundo Bouças Coutinho, Henrique Cairus, Celina Mello e Rosa Gens.

Realmente sou muito muito muito privilegiada, e só tenho a agradecer a vida por tanto tipo de alegrias simultâneas.

Sim: e agora estou no Facebook: http://www.facebook.com/leilamiccolis

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

POESIA COMENTADA


Conheci Paulo Leminski em um lançamento na livraria Muro, onde havia sempre noites de autógrafos coletivas, na época; em uma dessas noites de 1980 Alice Ruiz estava lançando no Rio seu livro Navalha na Liga. Eu já me correspondia há mais ou menos um ano com ela (por carta mesmo, manuscrita, posta no correio, essas coisas antigas...) e confirmei minha presença. Como sempre o local estava repleto, mal se podia andar, perguntei a diversos amigos onde estava Alice, mas todos só me apontavam para o Paulo, cercado de admiradores. Sentei-me conversando com algum poeta e pensei: deixa diminuir um pouco a multidão que talvez eu a encontre mais fácil. No meio da conversa, eis que chega alguém para mim e diz: — Leila Míccolis? Sou seu fã. Para meu espanto era o próprio Paulo. Respondi-lhe, rindo: — eu também, só que hoje estou aqui principalmente para conhecer sua mulher... E ele, simpatissíssimo: — vamos, eu te levo até ela... Foi assim que conheci o grande casal de poetas. Eles me convidaram para ir no dia seguinte até o apartamento em que estavam hospedados, e a partir daí nasceu uma amizade um tanto longínqua (eles moravam no Paraná), mas muito forte entre nós três. Várias vezes Paulo citou-me em suas entrevistas e artigos (eu até hoje cito-o sempre: "vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia") e estivemos juntos em diversas mesas de debates literários, o que também acontece com Alice.


O  poema abaixo para mim é uma pérola, das muitas que Paulo escreveu: ele é um dos raros autores em que a forma não limita o conteúdo de seus poemas, ao contrário, dança com ela. Conseguia o poeta a mágica de brincar com a assonância das palavras, sem que isto afetasse a reflexão séria sobre o tema proposto. Os sons deslizam pelo poema, fluindo com extrema facilidade. Do livro Caprichos e relaxos (Brasiliense, SP, 1983) escolhi estes versos (poderia ter optado por diversos haicais belíssimos), também pela dificuldade de se encontrar ângulos diferentes dentro de um tema universalmente tão abordado como o sentimento amoroso. Eis uma lírica sem o exacerbado sentimentalismo romântico, com suas metáforas açucaradas; eis uma lírica que adapta a conhecida tese científica de Lavoisier e inteligentemente a desloca e a aplica ao cotidiano de todos nós.


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

CAMADAS

Ser livre não é manter-se
intocável, sem entregas,
nem se dar também, às cegas,
a tudo o que nos agrade.

Ser livre é viver a idade
que sente o nosso querer,
é viver conforme a vida
é sobretudo viver.

E viver é mergulhar
para emergir com o submerso,
ampliando, a cada dia,
os limites do universo.

          Leila Míccolis

Do livro: "Sangue Cenográfico"

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Da farsa ao fogão

Desconheço o que é ser Cinderela,
mas conheço muito bem
como se sente uma abóbora...

       Leila Míccolis



Do livro: Sangue Cenográfico

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da primeira novela a gente não esquece

Imagem do logo da novela Mania de Querer, levada ao ar pela TV Manchete,
de setembro de 1986 a março de 1987

Eu estava nervosa, uma pilha. Embora ninguém colocasse nestes termos, eu sabia perfeitamente que aquele seria um teste, não para passar de ano, mas para mudar o curso do rumo de minha vida, talvez provisório-definitivamente... Pela primeira vez eu ia escrever para a televisão com créditos na tela. Isto, se fosse aprovada. Óbvio.

Lá fomos nós: eu e meu medo. Tocamos a campainha, Silvan Paezzo nos atendeu, com olhar sisudo, convidando a entrar; finalmente, eu estava diante do "monstro sagrado" da minha juventude. Eu tinha lido todos os seus romances críticos, violentos, entre fascinada e horrorizada, e, até hoje, amo-os profundamente. Também foi dele a única novela que acompanhei, antes de escrever para a TV. Lembro-me de que Juca de Oliveira fazia greve de fome para sensibilizar a heroína, sua bem-amada, e, depois de conseguir tê-la em seus braços, com tanto sacrifício, ele morria no último capítulo, vítima de anemia. Só mesmo um grande autor seria capaz de uma ousada e perigosa reversão de expectativa desse tipo. Pois era diante dele que eu estava...

Em poucas palavras Silvan me colocou a par da situação: precisava de uma colaboradora para acabar "Mania de Querer" (1987), pois, por problemas internos, mais da metade do elenco tinha saído; precisava então refazer a sinopse, pois a novela era praticamente outra, precisava mudar até os rumos da trama, devido à debandada de atores. Perguntou-me se eu tinha experiência em TV e respondi que só fizera um Caso Verdade, comprado pela Globo, através de Henrique Martins, mas que o seriado não tinha sido exibido, por causa da censura prévia, o tema era muito forte (barriga de aluguel) para o horário da tarde. Ele foi durão: "– Saber que você escreve bem, eu sei, todos sabem; mas, como não li nenhum roteiro seu, preciso ver seu estilo. Me escreve aí a seguinte cena: uma mulher bonita está malhando, sozinha na academia, quando entra o ex-namorado, agarra-a e transa com ela à força". Pensei de imediato: ele tinha que começar logo com um estupro?...

Lembrei-me, porém, da "Época dos tristes", "Diário de um transviado", "Av. Copacabana 389 apt 801", "Santa Rosinha do Mangue", "Madame Satã" e achei que ele estava sendo coerente, seu pedido fazia sentido. Caprichei então, carreguei nas cores para ser tão realista e forte quanto o "Mestre". Quando acabei, ele leu, franziu o cenho e disse: – "Bom texto, mas muito pesado, principalmente partindo de uma mulher"... Senti uma incômoda sensação de "déjà vu", pois já ouvira muito a variante desta frase com relação a minha poesia. Só que, partindo dele, eu não esperava. Rapidamente levantei-me para ir embora, achando que todas as minhas chances tinham ido por cena abaixo, e lhe respondi, de forma um tanto brusca (pois queria sair dali o mais rápido possível):  – "Desculpe, Paezzo, eu não sabia que você queria um estupro leve". Levantei-me já pronta para sair e ele me disse em seu tom seco: – "Senta aí. "Está contratada".

Até hoje não sei se a decisão dele foi motivada pelo que escrevi ou pelo modo com que reagi. Sei que nos entendemos bem. No último dia de trabalho, levei seus livros e pedi que os autografasse. Os exemplares estavam velhos, amarelecidos, com a capa quase despencando, e cheios de anotação. Surpreso, ele folheou-os: "– Esses realmente foram muito lidos". Confirmei: – "Foram. Para mim, você é um dos melhores romancistas deste país". E complementei logo, já que eu sabia que ele não me perguntaria, mesmo que desejasse muito saber a resposta: – "Não lhe falei isto antes, porque eu não queria que minha admiração interferisse na nossa convivência profissional, nem que você pensasse que eu estava te elogiando por puxa-saquismo". Ele emocionou-se. Sei disso porque, pela primeira e única vez, ganhei dele um tímido sorriso. E este, eu tenho certeza, não foi pelo que eu lhe dissera, mas pela capacidade, que sempre tive, de surpreendê-lo.

                                         ***

Eu terminara esta crônica no parágrafo acima, pois nunca mais o vi depois daquele dia e sabia que ele falecera no ano 2000 – Mania de Querer fora seu último trabalho para a televisão. No entanto, há alguns anos, o filho dele entrou em contato comigo (eu o conheci quando ele tinha dois ou três anos de idade), através de uma rede social e me fez uma grande revelação: – "Meu pai falava que você tinha sido a melhor parceira de toda a carreira dele; ele tinha enorme admiração por você". Ao saber disso, pensei: se em vida sempre surpreendi Silvan, agora ele fizera o mesmo comigo – uma bela reversão de expectativa, que também me fez sorrir timidamente emocionada.

Leila Míccolis

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ZOOM

O vento quando se enjoa
de juntar flores e feixes,
percorre alegre a lagoa
fazendo cócega aos peixes...



               Leila Míccolis

Poema constante do projeto CeluLer - poesia diária por telefone

(Foto extraída do site: http://cliqueambiental.blogspot.com/2011/02/lagoa-do-peixe-um-paraiso-de-aves-aguas.html)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

REFLEXÃO

Fui eu quem lhe deu, feroz,
uma paixão tão voraz
que fora dela, rapaz,
nenhum espaço sobrou.



Fui eu quem lhe deu a corda
com que você se enforcou?



Leila Míccolis

Do livro: "Fui eu", org. Eunice Arruda, 41 autores escrevendo sobre uma pintura (acima) de Valdir Rocha, Escrituras, 1998, SP.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Arco-íris e trovões

     Foto Premiada na categoria Foto Especial: "Momento único"
     Fotógrafo: Nicodemos Rosa
     Fonte:  http://www.
panoramio.com/photo/32439284


Só o céu consegue o tento

de ser bravo e colorido
ao mesmo tempo.

       Leila Míccolis

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Dar nomes ao cão (***)

Eu sou "Leandro",
porém
"Ouou" me cai muito bem
por causa do meu latido.
Se chegam desconhecidos
aí sim, eu solto a voz,
porque Leila me ensinou:
“Cuidado: gente feroz!”
Já perguntaram pra mim,
se inspirei uns versos dela
sobre um tal de "Rin Tin Rin".
Isso eu não sei (talvez sim),
não conheço este carinha,
nunca fui apresentado
(será que agita a patinha
quando também pede agrado?).
Sou "Lobo", pra vizinhança,
sou  "Totó" para as crianças,
mas pros íntimos de casa,
não ligo pra nome não:
fico prosa e todo em brasa
quando a mão deles me afaga,
dizendo muda: meu cão.

          Leila Míccolis
_____
(***) Parafraseando o título do poema de T. Eliot, "Dar nome aos gatos".

Publicado no livro: Poemas que latem ao coração, org. Ulisses Tavares, Ed. Nova Alexandria, 2009, SP. 

N.A.: Ouou ainda chegou a ver o livro, pois morreu em outubro de 2010.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

FUZILAMENTO

 
Apontar...
Atirar...
Goool...

         Leila Míccolis


Do livro: MPB: Muita Poesia Brasileira, Ed, Trote, 1ª ed. 1982, RJ

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...