
Apesar de ser fundamentada na Dissertação de Mestrado da autora, em Ciência da Literatura/Teoria Literária (Letras/UFRJ), no 1º semestre de 2007, a obra é dirigida a um público maior, e não apenas à Comunidade Acadêmica. Nela, a autora tece comentários sobre o gênero épico patético e questiona a dificuldade que as sociedades tem de reconhecer seu lado épico na pós-modernidade, ao contrário do que acontece com o gênero dramático e com o lírico. No último capítulo, Míccolis também pesquisa as razões do poema dramático ser tão pouco encenado na contemporaneidade. Tendo utilizado para ilustrar sua teoria o poema dramático Calabar, de Lêdo Ivo, o volume traz também uma entrevista exclusiva com o poeta alagoano, tecendo considerações sobre o poema enfocado, poema este que é publicado ao final, na íntegra. Trata-se, pois, de livro muito abrangente, destinado não só aos professores, alunos e amantes das Letras, mas, também, aos interessados em Teatro, e aos admiradores da obra de um dos maiores poetas brasileiros vivos.
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7 comentários:
Parabéns, amiga.
Abraço fraterno.
Eurico - Recife
Muito obrigada, valeu Eurico. Leila
leila,
a blogosfera não é a mesma sem você.
abç
Samuca, vc continua o máximo! Bj, Leila
Pois um dos inúmeros méritos do livro de Leila Míccolis, Passagem de Calabar, é o de revelar, salientar, enfatizar, chamar à cena o leitor para a importância e beleza desse belo poema dramático, talvez o melhor da literatura brasileira, que se equipara ao “Marinheiro” de Fernando Pessoa.
Calabar foi escrito para ser representado. Traz para nós os conceitos de pátria, cidadania, memória. E também de alienação, da alienação da classe média brasileira. Ou seja: “Calabar está onde não está”, o que quer dizer que ele está em toda parte. Quem o diz é “Uma voz”, um personagem fantasma, que deve ser tudo, talvez seja mesmo a Voz da História, a voz das esquerdas, a voz política, a voz crítica.
Como “A viúva de Calabar” é a voz da revolução, da luta armada, a voz que chama para as ruas, para o grito dos excluídos, que diz “que meu ódio esteja em toda a parte”, o ódio revolta, o ódio nordestino.
O poema dramático de Ledo Ivo estampou um país fracionado, dividido, entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste, entre o Brasil que recebe Bolsa Família e o Brasil que não precisa receber, entre o político nordestino analfabeto de esquerda sem um dedo e o político empresário paulista intelectual doutor cosmopolita. O poema mostra a divisão ideológica do Brasil, ainda que a Leila tentou passar por cima disso para não ferir a mesma ferida. Neste poema, extremamente dramático, Ledo Ivo deu voz a quem não a tem, fez falar e mesmo gritar a grande massa da população pobre, pois “quem te fez em pedaços” que lamba as pedras, que beba a água salgada e morra na sua sede.
Para Ledo Ivo, “a História é uma ficção”, ou seja, uma narrativa, um personagem, uma Voz. “Para mim, não há verdade histórica. Há a versão do vencedor, do vencido, do observador, do pesquisador, etc. Como poeta, não estou interessado na verdade, e sim na mentira, no mito, na mitografia, na mitologia. Calabar é uma figura mítica.”
A história é sua versão, a história é uma versão da verdade.
Ledo Ivo criou também a versão dos vencidos, criou a versão dos personagens do poema. Algumas versões são dos vencidos, como do “Alagoano”, que diz:
Assim eu sou coisa grátis,
já que não tenho valor.
E criou a versão da classe média brasileira, enriquecida, alienada, que não vê nada, que não sabe de nada, que nada pensa, que não é capaz de ver o que não está na TV:
Quem vê nem sempre vê.
O melhor cego é aquele
que vê na TV.
Que esses versos valem por um poema inteiro e são da maior atualidade!
É excelente o livro de Leila Miccolis, “Passagem de Calabar”.
Segundo ela, o que se vê em Calabar é o mito da traição.
A quem traiu Calabar? A Portugal? Ao Brasil? Calabar escolheu lutar pelos invasores holandeses, e não pelos invasores portugueses/espanhóis. É por isso um traidor? O mito da traição se expõe ironicamente nos versos de Ledo Ivo:
Major Calabar
soldado de que pátria
na Pátria sem pátria
.........................
Mal perguntado, pergunto
A quem traiu Calabar?
A que pátria traiu aquele
que não tem pátria nenhuma
Leila nos oferece um panorama do Brasil apresentando o poema de Ledo Ivo e abre a cortina de suas possibilidades com uma grande variedade de temas. Por exemplo, a questão dos gêneros, os meandros do dramático, do poema dramático. Além de literário, o ponto que ela desenvolve é o político.
Rogel, muitíssimo obrigada pelos seus textos -- muito mais do que comentários, opinião abalizadíssima.
Vamos ver se faço um lançamento do livro para breve. Com imenso carinho, Leila
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