terça-feira, 26 de novembro de 2013


Amigos:
Há quase um ano venho tendo problemas com o blogspot, não consigo deixar comentários em nenhum blogspot alheio. Dirigi-me diversas vezes ao suporte, sem nunca ter recebido sequer uma resposta. Aí desanimei e este meu blog tem estado tipo devagar quase parando. Então, resolvi  migrar para o wordpress.
Meu novo endereço é:
http://leilamiccolis.wordpress.com
Espero vocês lá. Abraços a todos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

LANÇAMENTO DO DESFAMILIARES EM SÃO PAULO

Desfamiliares - Obra poética completa de Leila Míccolis (1965 - 2012) será lançada no dia 7 de novembro de 2013, em São Paulo, na Livraria Martins Fontes - Paulista (Av. Paulista, 509, próximo à Estação do Metrô Brigadeiro), das 18.30 às 21.30 horas. A obra reúne meus livros solos, os em parceria (todos esgotados), os poemas dispersos em antologias, uma parte inédita, currículo resumido e fortuna crítica.
Capa: "Fauna", Urhacy Faustino e Mônica Banderas
Prefácio: Glauco Mattoso
Apresentação: Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
Este livro vem mantendo-se, há quatro meses seguidos, na lista dos dez mais vendidos na loja virtual da Editora Annablume, para grande alegria minha que sempre contestei o chavão: "poesia não vende"... (Leila Míccolis)


Clique na imagem para ampliá-la.

domingo, 26 de maio de 2013

LANÇAMENTO DE MINHA OBRA POÉTICA COMPLETA, NO RIO

                         Desfamiliares (1965 - 2012)
Reúne livros esgotados, antologias, inéditos, currículo e fortuna crítica

7 de junho, às 19 horas, na Livraria da Travessa, de Ipanema

Eis o convite, desde já obrigada pela divulgação e pela presença.
clique na imagem para aumentar

sábado, 1 de setembro de 2012

Meu novo Jornal Literário na web

De uns dias para cá, meu paper li transformou-se em Jornal Literário, com atualizações diárias. É um jornalismo diferente, em que apenas escolho os temas genéricos a serem abordados (culturais: literatura, saúde, ecologia, entretenimento, artes e afins) e a programação do gmail procura e disponibiliza as notícias automaticamente; então, todo dia, o noticiário é sempre uma surpresa, inclusive para mim, que me divirto muito com esta situação, de esperar a próxima edição, um tanto às cegas. Não totalmente: alguma notícia que eu não queira ou que não esteja dentro da linha editorial traçada por mim, posso eliminar, e tenho feito; porém ainda não consigo acrescentar notícias que eu ache interessantes — com o tempo aprenderei. Considero o paper li uma ferramenta bastante interessante, porque ela é direcionada, fornece apenas notícias e informações sobre a sua área de atuação e sobre outras que com ela se interconectam. Se você quiser conhecer, o endereço do meu Jornal Literário é: http://paper.li/leilamiccolis/1308264181

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nova crônica minha no Yubliss: Face to Face(book) - como o título já anuncia é sobre o

Veja se você compartilha das mesmas ideias que eu, a respeito da mais famosa rede social atual.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Jogamos mesmo fora todo lixo que não presta?

hugsformonster
Leia minha crônica mais recente no Yubliss, em torno do fascinante livro de Michel Serres: O Mal limpo - poluir para se apropriar? Se comentar, não deixe de assinar seu nome, por favor. Acho importante pensarmos juntos neste assunto, pois o que está em jogo é a nossa vida e a do planeta.


A bela imagem acima é de autoria de Joe Lifrieri (atualmente em Nova Jersey) e se intitula: Hugs for monsters (nome também do blog dele). Vale a pena conhecer mais criações deste artista visual contemporâneo.

domingo, 27 de maio de 2012

Fui um réptil?

Em criança, nunca me dei bem com brincadeiras do faz-de-conta. Achava um reino um tanto desconfortável, onde a realidade, em confronto com a imaginação, revelava-se frustrante e insuficiente. Para mim, era muito difícil imaginar, nas panelinhas, comidinhas inexistentes, ou então ensinar bonecas mudas, que me olhavam alheias e indiferentes e nunca aprendiam absolutamente nada. Entendo agora que para mim, na época, o faz-de-conta assemelhava-se a certas propagandas enganosas que assistimos hoje na publicidade.

O nunca encenar “teatrinhos” na infância possivelmente marcou muito a minha postura diante da vida, fazendo-me distinguir no dia a dia fantasia da realidade, não para  dicotomizar-me, mas para aprender a trabalhar com os diversos ângulos de mim, simultaneamente: eu e meus múltiplos. Nem sempre é fácil na vida real saber onde acaba o “se” e onde começa o “agora”, talvez porque a realidade, com suas diversas interpretações, pode ser tão fluida quanto a fantasia. No entanto, ciente dos meus mundos paralelos, acabei evitando cair na armadilha de protagonizar papéis na vida real, me tornando uma personagem de mim mesma.

O fato inconteste é que sempre preferi o diálogo com os livros. Eles me mostravam, por exemplo, o habitat dos peixes, cheio de cores, formas e magia. Como eu adorava o colorido mundo submarino com seus animais e sua flora exótica. Antes mesmo de saber ler, eu me deliciava com as ilustrações, imaginando histórias das profundezas abissais. Isto era bem diferente do mero faz-de-conta. O oceano existia, os peixes também, e eu apenas inventava aventuras. Os livros me revelavam o mundo real, enquanto o faz-de-conta me soava como um palco, em que só se encenava monólogos. A ficção, portanto, era uma forma de eu própria transitar pelos universos e não de moldá-los à minha imagem e semelhança. Esta diferença de perspectiva fazia muita diferença. Sempre fez. Nas fotos coloridas havia diversos espécimes de animais, inclusive a tartaruga marinha. Pronto: cheguei onde eu queria.

Falando no facebook sobre meu micro, lento que nem tartaruga, revelei ao Chico Abelha que minha relação com elas era muito pouco amistosa, digamos até conflituosa. Então ele perguntou: “como analisaríamos uma mulher que adora gatos e cachorros, mas tem horror crônico a tartarugas...? rsrsrssrs! freud explicaria?” Devidamente instigada, fiquei de escrever sobre  o assunto: a rara exceção do meu amor aos animais. Não se trata porém de desamor, é bem mais complexo: algo me incomoda profundamente nelas e, ao nos depararmos frente a frente, face a face, olho a olho, ocorre de imediato o processo atração x rejeição: elas correm (maneira de dizer) em minha direção e eu corro em direção contrária a delas. Não me importo com o tamanho: mesmo que você me apresente a mais meiga, suave e menor tartaruga do mundo na palma de sua mão, provavelmente me sentirei ameaçada. Lembro-me de que, uma vez, visitei alguém que tinha um cão feroz e uma tartaruga no quintal, e quando a dona da casa me disse: – “um momento que vou prender o cachorro”, eu pedi: – “não, por favor, prenda apenas a tartaruga”... A gargalhada foi geral, porque se tratava de uma tartaruga minúscula, “inofensiva” segundo sua dona; mas só me senti segura com a tartaruga presa no banheiro – nem preciso dizer que minha visita demorou o mínimo possível para não estressar a tartaruguinha.

Volto ao início: mentira, invenção, teatralização, fantasia, mesmo sendo bem difícil às vezes de perceber a diferença, elas ficam muito claras se as transponho para  minha ligação (des)afetiva com as tartarugas. Vou dar exemplos: mentira é dizer que amo tartarugas. Invenção seria alardear que salvei alguma de morrer devorada por um tubarão; que tirei alguma foto sorrindo acariciando o casco de alguma delas, é pura teatralização (inclusive, se virem alguma fotografia assim, saibam que provavelmente ela foi editada...); e, por fim, trata-se de fantasia quando pratico nado de peito (o tipo de estilo que eu mais gosto) e me sinto como se fosse uma tartaruga marinha, o que ocorre frequentemente. E aí realmente entra Freud, meu caro Chico: até meu próprio signo capricórnio (a cabra marinha) indica que devo ter vindo do mar (meu sonho recorrente é sempre com ele) antes de pisar na terra. Não que eu queira fazer aqui nenhum tipo de regressão, mas pode ser até que em alguma encarnação passada, através da metempsicose transmigratória, eu tenha sido uma tartaruga que acabou virando sopa... (não entro em hipótese alguma em restaurantes que pescam lagostas ou peixes vivos, tipo: pesque e pague); daí se explicaria o total incômodo que sinto ao ver uma tartaruga – revivo a dor ancestral da profanação: ser caçada, morta, esquartejada e comida publica e impudicamente à mesa? – e também minha enorme resistência em sentir prazer de degustar quaisquer tipos de “frutos do mar”..

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Recentes entrevistas comigo:
  • No Youtube, entrevista para o programa de televisão Imagem da Palavra,  entrevistadora: Guga Barros

http://www.youtube.com/watch?v=uO4iBsFDwy4 - 1ª parte

  • No blog da famosa revista Escrita (agora digital), entrevistador: Wladyr Nader

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma coruja pousou em minha defesa de tese

No dia 20 de março obtive meu título de Doutora em Ciência da Literatura / Teoria Literária. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, a coroação de muito esforço e dedicação. Para mim, um acontecimento realmente histórico, em que pude contar, na Banca, com a presença de cinco grandes representantes do pensamento acadêmico brasileiro. Foi uma espécie de prêmio, de consagração, de reconhecimento de uma vida praticamente inteira dedicada amorosamente à literatura. Um enorme turbilhão de emoções tomou conta de mim, desde o branco inicial pela tensão (nunca tinha sentido um branco antes na minha vida, é devastador), até uma presença inesperada, repleta de significantes e significados: uma linda coruja (vivo símbolo da sabedoria) que veio me prestigiar: ei-la silenciosa e discreta pousada na porta do corredor da UFRJ, a apenas dez passos da sala do meu exame, observando, meditando. Incrível? Fantástico? Mágico? REAL.


E, abaixo, a banca examinadora, meus queridos e amados professores doutores da UFRJ:


Da esquerda para a direita: Ana Alencar, Tatiana Ribeiro, Luiz Edmundo Bouças Coutinho, Henrique Cairus, Celina Mello e Rosa Gens.

Realmente sou muito muito muito privilegiada, e só tenho a agradecer a vida por tanto tipo de alegrias simultâneas.

Sim: e agora estou no Facebook: http://www.facebook.com/leilamiccolis

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

POESIA COMENTADA


Conheci Paulo Leminski em um lançamento na livraria Muro, onde havia sempre noites de autógrafos coletivas, na época; em uma dessas noites de 1980 Alice Ruiz estava lançando no Rio seu livro Navalha na Liga. Eu já me correspondia há mais ou menos um ano com ela (por carta mesmo, manuscrita, posta no correio, essas coisas antigas...) e confirmei minha presença. Como sempre o local estava repleto, mal se podia andar, perguntei a diversos amigos onde estava Alice, mas todos só me apontavam para o Paulo, cercado de admiradores. Sentei-me conversando com algum poeta e pensei: deixa diminuir um pouco a multidão que talvez eu a encontre mais fácil. No meio da conversa, eis que chega alguém para mim e diz: — Leila Míccolis? Sou seu fã. Para meu espanto era o próprio Paulo. Respondi-lhe, rindo: — eu também, só que hoje estou aqui principalmente para conhecer sua mulher... E ele, simpatissíssimo: — vamos, eu te levo até ela... Foi assim que conheci o grande casal de poetas. Eles me convidaram para ir no dia seguinte até o apartamento em que estavam hospedados, e a partir daí nasceu uma amizade um tanto longínqua (eles moravam no Paraná), mas muito forte entre nós três. Várias vezes Paulo citou-me em suas entrevistas e artigos (eu até hoje cito-o sempre: "vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia") e estivemos juntos em diversas mesas de debates literários, o que também acontece com Alice.


O  poema abaixo para mim é uma pérola, das muitas que Paulo escreveu: ele é um dos raros autores em que a forma não limita o conteúdo de seus poemas, ao contrário, dança com ela. Conseguia o poeta a mágica de brincar com a assonância das palavras, sem que isto afetasse a reflexão séria sobre o tema proposto. Os sons deslizam pelo poema, fluindo com extrema facilidade. Do livro Caprichos e relaxos (Brasiliense, SP, 1983) escolhi estes versos (poderia ter optado por diversos haicais belíssimos), também pela dificuldade de se encontrar ângulos diferentes dentro de um tema universalmente tão abordado como o sentimento amoroso. Eis uma lírica sem o exacerbado sentimentalismo romântico, com suas metáforas açucaradas; eis uma lírica que adapta a conhecida tese científica de Lavoisier e inteligentemente a desloca e a aplica ao cotidiano de todos nós.


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

CAMADAS

Ser livre não é manter-se
intocável, sem entregas,
nem se dar também, às cegas,
a tudo o que nos agrade.

Ser livre é viver a idade
que sente o nosso querer,
é viver conforme a vida
é sobretudo viver.

E viver é mergulhar
para emergir com o submerso,
ampliando, a cada dia,
os limites do universo.

          Leila Míccolis

Do livro: "Sangue Cenográfico"

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Da farsa ao fogão

Desconheço o que é ser Cinderela,
mas conheço muito bem
como se sente uma abóbora...

       Leila Míccolis



Do livro: Sangue Cenográfico

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Da primeira novela a gente não esquece

Imagem do logo da novela Mania de Querer, levada ao ar pela TV Manchete,
de setembro de 1986 a março de 1987


Eu estava nervosa, uma pilha. Embora ninguém colocasse nestes termos, eu sabia perfeitamente que aquele seria um teste, não para passar de ano, mas para mudar o curso do rumo de minha vida, talvez definitivamente. Pela primeira vez eu ia escrever para a televisão, com créditos e tudo na tela. Isto, se fosse aprovada. Óbvio. 


Lá fomos nós: eu e meu medo. Tocamos a campainha, Silvan Paezzo nos atendeu, com olhar sisudo, convidando a entrar; finalmente, eu estava diante do "monstro sagrado" da minha juventude. Eu tinha lido todos os seus livros críticos, violentos, entre fascinada e horrorizada, e, até hoje, amo-os profundamente. Também foi dele a única novela que acompanhei, antes de escrever para a TV. Lembro-me de que Juca de Oliveira fazia greve de fome para sensibilizar a heroína, sua bem-amada, e, depois de conseguir tê-la em seus braços, com tanto sacrifício, ele morria no último capítulo, vítima de anemia. Só mesmo um grande autor seria capaz de uma ousada e perigosa reversão de expectativa desse tipo. Pois bem, era diante dele que eu estava... 

Em poucas palavras Silvan me colocou a par da situação: precisava de uma colaboradora para acabar "Mania de Querer" (1987), pois, por problemas internos, mais da metade do elenco tinha saído; precisava então refazer a sinopse, pois a novela era praticamente outra, com tanta mudança. Perguntou-me se eu tinha experiência em TV e respondi que só fizera um Caso Verdade, comprado pela Globo, através de Henrique Martins, mas que o seriado não tinha sido exibido, por causa da censura prévia. Ele foi durão: " Saber que você escreve bem, eu sei, todos sabem; mas, como não li nenhum roteiro seu, preciso ver seu estilo. Me escreve aí a seguinte cena: uma mulher bonita está malhando, sozinha na academia, quando entra o ex-namorado, agarra-a e transa com ela à força". Pensei: "ele tinha que começar logo com um estupro?" 

Lembrei-me, porém, da "Época dos tristes", "Diário de um transviado", "Av. Copacabana 389 apt 801", "Santa Rosinha do Mangue", "Madame Satã" e achei coerente, fazia sentido. Caprichei então, carreguei nas cores para ser tão realista e forte quanto o "Mestre". Quando acabei, ele leu, franziu o cenho e disse: - "Bom o texto, mas muito pesado, principalmente partindo de uma mulher"... Senti uma incômoda sensação de "déjà vu", pois já ouvira muito a variante desta frase com relação a minha poesia. Só que, partindo dele, eu não esperava. Rapidamente levantei-me para ir embora, achando que todas as minhas chances tinham ido por cena abaixo, e lhe respondi, de imediato: - "Desculpe, Paezzo, eu não sabia que você queria um estupro leve". Ele me olhou como se quisesse sorrir e me elogiou, do seu jeito seco:  "Está contratada". 

Até hoje não sei se a decisão dele foi motivada pelo que escrevi ou pelo modo com que reagi. Sei que nos entendemos bem. No último dia de trabalho, levei seus livros e pedi que os autografasse. Os exemplares estavam velhos, amarelecidos, com a capa quase despencando, e cheios de anotação. Surpreso, ele folheou-os: "- Esses realmente foram muito lidos". Confirmei:  "Foram. Você pra mim é um dos melhores romancistas deste país". E complementei logo, já que eu sabia que ele não me perguntaria, mesmo que desejasse muito saber a resposta:  "Não lhe falei isto antes, porque eu não queria que minha admiração interferisse na nossa convivência profissional, nem que você pensasse que eu estava te elogiando por puxa-saquismo". Ele emocionou-se. Sei disso porque, pela primeira e única vez, ganhei dele um tímido sorriso. E este, eu tenho certeza, não foi pelo que eu lhe dissera, mas pela capacidade, que sempre tive, de surpreendê-lo.

Esta crônica terminava no parágrafo acima, pois nunca mais o vi depois daquele dia. No entanto, há uns dois anos, pelo orkut, o filho dele entrou em contato comigo (eu o conheci quando tinha dois ou três anos de idade), e me fez uma grande revelação: – "Meu pai falava que você tinha sido a melhor parceira de toda a carreira dele, tinha grande admiração por você". Ao saber disso, pensei: se em vida sempre surpreendi Silvan, agora ele conseguira fazer o mesmo comigo: uma bela reversão de expectativa, que também me fez sorrir timidamente emocionada.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ZOOM

O vento quando se enjoa
de juntar flores e feixes,
percorre alegre a lagoa
fazendo cócega aos peixes...



               Leila Míccolis

Poema constante do projeto CeluLer - poesia diária por telefone

(Foto extraída do site: http://cliqueambiental.blogspot.com/2011/02/lagoa-do-peixe-um-paraiso-de-aves-aguas.html)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

REFLEXÃO

Fui eu quem lhe deu, feroz,
uma paixão tão voraz
que fora dela, rapaz,
nenhum espaço sobrou.



Fui eu quem lhe deu a corda
com que você se enforcou?



Leila Míccolis

Do livro: "Fui eu", org. Eunice Arruda, 41 autores escrevendo sobre uma pintura (acima) de Valdir Rocha, Escrituras, 1998, SP.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Arco-íris e trovões

     Foto Premiada na categoria Foto Especial: "Momento único"
     Fotógrafo: Nicodemos Rosa
     Fonte:  http://www.
panoramio.com/photo/32439284


Só o céu consegue o tento

de ser bravo e colorido
ao mesmo tempo.

       Leila Míccolis

domingo, 12 de fevereiro de 2012

MOLDES









Desfilo meu corpo de manequim,
onde exibes teu abraço;
porém, despida de mim,

eu viro armação de aço.

Leila Míccolis

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Dar nomes ao cão (***)

Eu sou "Leandro",
porém
"Ouou" me cai muito bem
por causa do meu latido.
Se chegam desconhecidos
aí sim, eu solto a voz,
porque Leila me ensinou:
“Cuidado: gente feroz!”
Já perguntaram pra mim,
se inspirei uns versos dela
sobre um tal de "Rin Tin Rin".
Isso eu não sei (talvez sim),
não conheço este carinha,
nunca fui apresentado
(será que agita a patinha
quando também pede agrado?).
Sou "Lobo", pra vizinhança,
sou  "Totó" para as crianças,
mas pros íntimos de casa,
não ligo pra nome não:
fico prosa e todo em brasa
quando a mão deles me afaga,
dizendo muda: meu cão.

          Leila Míccolis
_____
(***) Parafraseando o título do poema de T. Eliot, "Dar nome aos gatos".

Publicado no livro: Poemas que latem ao coração, org. Ulisses Tavares, Ed. Nova Alexandria, 2009, SP. 

N.A.: Ouou ainda chegou a ver o livro, pois morreu em outubro de 2010.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

FUZILAMENTO

 
Apontar...
Atirar...
Goool...

         Leila Míccolis


Do livro: MPB: Muita Poesia Brasileira, Ed, Trote, 1ª ed. 1982, RJ

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Missão cOmprida

Você conseguiu tudo na vida: 
uma grande barriga bem alimentada
uma amante infiel
uma esposa comportada
carro do ano
filhos rebeldes ao teu jugo tirano
casa própria, emprego com crachá
um sítio em Visconde de Mauá
um ufanista amor pelo país
tudo como manda o figurino
(de Paris).
E morrerá, cumprindo a sua parte,
de tensão ou de enfarte,
de repente,
sem nem ao menos de longe perceber
que podia ter sido diferente.

         Leila Míccolis 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

RJ TV

 
Cidade grande
é um sofrimento:
o tráfico a mil. O tráfego lento...
 
          Leila Míccolis
 
Publicada originariamente na Revista Os Urbanitas - Revista de Antropologia Urbana, Ano 2, vol. 1, (ISSN 18060528), SP, 2005

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

SEREIA, JANAÍNA, IEMANJÁ

Vem meu veleiro navegar-me lendas
que abro oceanos nunca desbravados,
as portas líquidas dos meus reinados,
e armo de pérolas as nossas tendas...
 
Vê-me a nudez — afasta as alvas rendas,
que encontrarás tesouros afundados;
só que talvez, pra teres tais agrados,
ao mar pra sempre tua vida prendas.
 
Se mesmo assim o novo lar não temes,
se não recuas, e se ainda gemes,
por meu amor, sedento de paixão,
 
cheia de luzes, colorida amante,
eu verde, azul, e em brilhos deslumbrantes,
refratarei-me em tuas redes-mãos.
 
                            Leila Míccolis 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

TORCIDA










Contestando alguns libelos
que eu sempre julguei daninhos,
desde meus tempos mais idos,
quando havia algum duelo
entre o bandido e o mocinho,
eu era mais o bandido...
 
                           Leila Míccolis 
Do livro: "MPB - Muita Poesia Brasileira", in  Sangue Cenográfico, Blocos, 1997, RJ

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Geração Inde(x)pendente


Em vez de me deitar na cama,
resolvi criar fama.
E aí comecei a fazer versos, a mendigar editores,
como se eles fizessem grandes favores
em nos publicar...
E de tanto batalhar, virei... poeta
— um grande passo em minha meta,
porque em poetisa todo mundo pisa.
E quando me consideraram menina prodígio,
consegui que um crítico de prestígio
analisasse minha papelada.
Ele deu uma boa folheada,
pensou, pesou e sentenciou:
— "Incrível... não tem nível..."
Juro que fiquei com muita mágoa
porque, afinal, quem precisa de nível
é caixa d'água... 

                                Leila Míccolis


Do livo:  "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

GASES

(Ciclo ecológico)


O buraco na camada de ozônio
preocupa a população da Terra inteira;
mas até hoje ainda não vi ninguém
abrindo mão da sua geladeira...



            Leila Míccolis

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O MICRO E EU

                                      
Minha relação com o micro foi sempre a de atração e rejeição; não por medo da modernidade, mas porque, como boa capricorniana, sempre sondo primeiro antes de confiar por inteiro. Meu parceiro da novela "Kananga do Japão", Wilson Aguiar Filho, maravilhado com o seu computador, me dizia entusiasmado: "quando você tiver o seu, não vai querer saber de mais nada". Longe de ser convencida com este argumento, ao contrário, me calava, achando aquilo uma ofensa velada à minha máquina de escrever eletrônica — aquela grande, cheia de "margaridas" para mudar os tipos de letras, e teclas de atalhos para executar comandos. Até que eu me animei, com "Barriga de Aluguel", devido a um motivo muito simples: estava ficando caro demais manter a máquina eletrônica, principalmente pela borracha que acabava muito rapidamente...


Quando o micro chegou em minha vida achei até que a adaptação foi fácil quanto ao teclado de digitação. O pior era criar um arquivo e salvar... Eu escrevia todos os passos (que eram apenas quatro ou cinco) em um caderno, tudo explicadinho. Na hora de fazer, salvava tudo errado. Nestas horas, meu amigo, que pacientemente me ensinava, ficava horas pelo telefone me teleguiando à distância para me ajudar a descobrir onde eu salvara o arquivo perdido, sempre nos lugares mais loucos do mundo, ou melhor do micro, óbvio.


Uma vez, ainda neste estágio preliminar, perdi uma peça de teatro que eu estava criando. Do primeiro arquivo deletado a gente não esquece... A peça se chamava "Fora de Forma" e eu não tinha "backup", aliás,  foi a primeira vez que fui apresentada a um arquivo de segurança, pena que justo em meio a uma situação tão dramática (e a peça era uma comédia...).


Fiquei muito magoada com o micro, porque achei que a culpa era dele, eu não tinha feito nada demais. Ele é que estava a fim de atrapalhar o meu trabalho. Então, lembrei-me dos filmes em que o computador tinha vontade própria e por um bom tempo (alguns minutos) considerei-o um inimigo. E ele agiu assim, realmente. Quando eu estava trabalhando na reformatação da "74.5 - Uma onda no ar" para a TV portuguesa, ele literalmente "explodiu". Fiquei três dias trabalhando com um dos micros da produtora e, quando o meu chegou do conserto, veio com um rombo na "placa mãe". Disseram que, para consertá-lo direito, levariam muito tempo (na verdade, como era a produtora independente quem estava pagando o conserto, ela disse para fazer o micro funcionar rápido, e os técnicos fizeram apenas um "gatilho" provisório). No entanto, a partir daí, ao ver meu computador, mesmo combalido e fraco, quase sem memória, esforçando-se para cumprir suas tarefas (às vezes dezoito horas seguidas de trabalho), sem "esmorecer", sem pifar, sem me deixar na mão, comecei a gostar dele: o danado era resistente como eu, tínhamos garra... na primeira manifestação de simpatia de minha parte, ele recolheu as garras e eu  baixei a guarda.


Vários anos se passaram desde então. Neste exato momento, confesso que não poderia viver sem ele, ou melhor, abandoná-lo seria tão triste quanto me separar de um ente querido — e atentem para o detalhe de eu tê-lo chamado de "ente"...  —,  principalmente depois que nós, eu e Urhacy,  instalamos a internet (desde julho/96), construímos um site cultural, Blocos (http://www.plugue.com.br/blocos) e fizemos muitos amigos. A última da internet foi tão fantástica que quero partilhar com vocês: em agosto de 1984, no dia do enterro de meu pai, soube da existência de uma irmã (também filha dele). Depois deste dia, nós nos mudamos, e nos perdemos. Há duas semanas, ela me reencontrou pelos mecanismos de busca da internet, há mais de dez anos mora nos Estados Unidos. Todos os dias temos falado durante horas, pelo ICQ. E eu, que sempre fui criada como filha única, de repente vejo-me com sobrinhas e com a alegria de já ser, até, tia-avó... Parece trama de novela de televisão, mas é vida real.


Tanta emoção devo ao meu querido computador, esse amigo maravilhoso amigo de todas as horas — de diversão, conversas, jogos, informações e trabalho. Agora, sendo considerado como tal, ele me premia, retribuindo em dobro toda a felicidade que sinceramente lhe desejo. Portanto, se você ainda está na perigosa fase de atração e rejeição pelo seu micro, ultrapasse-a logo: descarte a primeira parte e fique com a segunda. Para o bem dos dois. E de todos.
Leila Míccolis


Texto publicado no Caderno de Informática do Estado de São Paulo, fls. 2, em 06/04/98

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A SECO

Tem coisas que a gente só diz de porre, 
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.


                   Leila Míccolis


Do livo: 
"Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

VÃ FILOSOFIA...

Falas muito de Marx,
de divisão de tarefas,
de trabalhos de base,
mas quando te levantas
nem a cama fazes...
                Leila Míccolis
Poema do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Clipes, grampos e elásticos

Outro dia, muito cansada, depois de mais um dia exaustivo em companhia de minha tese, percebi-me brincando e logo em seguida olhando atentamente para o design de um clipe de escritório com profunda admiração. Que objeto mais bem bolado: um pentágono formado por um fio de arame em uma espécie de labirinto... Esta descrição me levou rápido a diversas associações: o labirinto de Creta, os arames farpados dos campos de concentração, as texturas dos fios de cabelos asiáticos, e, lógico, ao Pentágono americano... Depois desta quase volta ao mundo em 80 clipes (oitenta em um único), voltei ao Brasil, e, como tinha pensado em fios de cabelo, não demorei muito para lembrar-me do grampo pretinho (outro objeto pequenino e precioso), não o de grampear telefones.... Aliás, o grampo de grampeador também é incrível, mas tão altamente poluente, que uma empresa de consultoria ambiental - a Physis SDA – criou um grampeador que não usa grampos. E o grampo de cabelo não é só útil para as mulheres não: quem algum dia, uma vez na vida pelo menos, não cedeu à tentação de coçar levemente a orelha com um deles?  

Sabemos quem foi o inventor do telefone, do para-raios, da lâmpada elétrica, mas... e dos clipes? Dos elásticos, já que eles são feitos de qualquer material que tende a preservar seu cumprimento, forma e volume contra as forças externas, nos lembramos logo de Newton e a sua lei da ação e reação. Sobre o grampo (de construção) encontrei um site com uma explicação tão interessante, que não resisto em dividir com vocês: sua origem data dos antigos persas, "que precisavam de uma solução para manter firmemente unidos os blocos de pedra que utilizavam nas construções de Pasárgada, sua primeira capital imperial (hoje, no Irã). Foi então que um dos construtores inventou um pedaço de metal torto, como se fossem dois pregos unidos por uma mesma cabeça, que era fincado contra dois blocos. Nasciam os famosos grampos, que serviriam para unir vários objetos ao longo da história".

Sobre os clipes, porém, não encontrei nada, nadinha, o que considero uma tremenda injustiça. O clipe prende, agrega, une democraticamente quaisquer papeis sobre os assuntos mais heterogêneos que resolvamos juntar, dependendo de nossa criatividade ou doideira. Para ele não importa a textura ou o volume de páginas, desde que respeitado, óbvio, sua capacidade proporcional ao seu tamanho: está sempre pronto a ligar, a não deixar as palavras soltas ao vento, com uma vantagem a mais do que o grampo: o clipe prende transitoriamente, permitindo mudar a ordem das páginas à vontade, ou seja, permitindo uma infinidade de combinações sem agredir os papéis (ao contrário, se grampeamos errado alguma página, retirar o grampo, por maior cuidado que se tenha, deixa marcas no papel).

Fiquei pensando que deveria ser um grande elogio revelar para alguém que amamos: você é meu clipe, desde que o outro imediatamente entendesse a mensagem como:  você é meu elo de ligação entre os diferentes aspectos do que sou. Mas, dependendo do outro, talvez a mensagem fosse recebida de modo truncado e surtisse o efeito contrário, como: considero você um objeto para mim, ínfimo e banal... Temos que admitir que há pessoas que complicam tanto a vida que perdem a capacidade e a sensibilidade de perceber a velada dimensão dos objetos simples.
Leia mais crônicas no meu Yublog:

domingo, 29 de janeiro de 2012

Ponto de vista


Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.
                                        Leila Miccolis
Poema do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sábado, 28 de janeiro de 2012

Para um sábado com mais sabor, uma receita naturalista



Abobrinha ao catupiry

Ingredientes:
1 abobrinha lavada grande, cortada em tira no sentido do comprimento
1 ovo
leite
farinha de trigo
1 lata de milho verde escorrido e lavado
manteiga
1 cebola pequena bem picadinha
cheiro verde - 1 caixa de catupiry (pode ser um copo de requeijão cremoso)
1 pacote pequeno de batata palha
sal e pimenta do reino a gosto
óleo para fritura


Modo de fazer:   

1 - Abobrinhas - Faça uma massa misturando ovo, leite e farinha de trigo, temperada com sal e pimenta do reino a gosto. Deixe as abobrinhas imersas nessa massa, por cerca de meia hora, pra que fiquem bem envolvidas. - Passe as abrobrinhas molhadas na massa pela farinha de trigo, frite-as dourando bem dos dois lados em óleo quente. Escorra em papel absorvente e reserve.
2. Milho - Numa panela aqueça a manteiga e frite a cebola até dourar. Refogue o milho escorrido e lavado, tempere a gosto com sal e pimenta do reino. Desligue a panela e acrescente cheiro-verde picadinho. Reserve.
3. Montagem do Prato - Aqueça o forno - Num refratário vá colocando em camadas: abobrinha, milho e catupiry. A última camada deve ser de catupiry. Jogue as batatinhas por cima e leve ao forno pra gratinar. Sirva com arroz e salada ou legumes verdes.


Receita enviada pela Thaty Marcondes



Leiam mais de 200 receitas naturalistas em meu site:
http://www.blocosonline.com.br/sites_pessoais/sites/lm/culinar/culititrec.htm

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EMPREGADA VIRTUAL


Manuela era uma empregada que mamãe não tinha, ou seja, uma abstração. Sempre que ela queria me chamar atenção por alguma coisa, dizia: – "Vai arrumar o quarto (ou lavar o prato ou qualquer outra coisa no gênero) que a Manuela hoje não veio". Eu já estava acostumada. No entanto, como falava na frente das visitas, algumas não percebiam que se tratava de uma ironia da parte dela. Um dia, uma de suas amigas lhe falou: – "Essa empregada falta mais do que trabalha, não sei porque você ainda não a despediu". Só então mamãe se deu conta de que a brincadeira estava sendo levada a sério e tratou de desfazer o mal-entendido, contando que Manuela não era real, não existia, era uma piada, hoje diríamos uma realidade virtual...


Quando D. Rosalinda soube que não havia Manuela nenhuma, ficou visivelmente triste. Eu era criança, mas percebi seus sentimentos pela expressão semelhante a que eu própria tive, quando soube que Papai Noel não existia. Na época, se meus coleguinhas diziam que o "bom velhinho" era mentira, eu estufava o peito e argumentava: – "Mamãe disse que ele existe e eu acredito, porque mamãe não mente". Imagine então a surpresa quando encontrei os presentes que eu pedira de Natal no guarda-roupa de meus pais. (Naquela época, naturalmente, eu ainda não discernia a mentira da fantasia; aliás, até hoje tenho certa dificuldade, porque as fronteiras às vezes são bem difusas...). Pois foi a mesma cara de decepção que eu vi estampada no rosto da visitante. Na hora não entendi direito o porquê, mas, hoje, penso que talvez minha mãe fosse a única das amigas de D. Rosalinda a ter uma empregada, ainda por cima uma empregada faltosa, cuja patroa, em sua grande generosidade, mantinha há anos. Mexer em Manuela, portanto, era também, de certa forma, ter de rever os valores de sua amizade com mamãe, o que estava totalmente fora de cogitação.


Confesso que Manuela só ressurgiu das cinzas, quando recebi de uma participante da Mixagem Literária, a nossa lista de escritores, uma frase de Willian Stekel (quanto tempo não ouvia falar no discípulo de Freud – eu era sua fervorosa admiradora nos tempos da minha Faculdade de Direito (na época eu lia mais psicanálise do que obras jurídicas... Depois mudei para Reich, mas esta é uma outra crônica). Dizia ele: "Nem sempre a verdade é fundamental para a nossa felicidade... Existem pessoas que morrem quando seus olhos são abertos!". Logo que terminei de ler, D. Rosalinda me veio à cabeça. Realmente. Foi tão forte para a amiga de mamãe a idéia da inexistência daquela empregada, a quem provavelmente já imaginara com um corpo, gordo ou magro, e com uma história trágica a lhe justificar tanta falta, que a visitante preferiu pensar que minha mãe mentira quando afirmara que a doméstica não existia, com intenções de não "humilhá-la", pois D. Rosalinda jamais podia pensar em ter uma. Todos sabiam que minha mãe era mestra nessas delicadezas (na época dela – pasmem – as pessoas ainda tinham respeito umas pelas outras, achávamos verdadeiramente que "ninguém era melhor do que ninguém" e, bofetadas, só se dava... com luvas de pelica). Acreditando nesta versão, logo a expressão facial da professora aposentada se transformou; e o sentimento de frustração deu lugar a uma grande admiração, até mesmo enorme gratidão, pela sutil delicadeza da colega, sua chefe e diretora de escola.


Manuela morreu com mamãe, mas, por tantas e tantas histórias a ela atribuídas, foi a mais forte das personagens fictícias a conviver conosco, na minha infância. Depois de Papai Noel, é claro...


Leila Míccolis

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

AMANTE DAS LETRAS

 

Não te importas com os homens que dormem comigo;
mas morres de ciúme
dos versos que faço para eles...


            Leila Míccolis

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ALVOS


    Se saio com quatro pedras na mão
    me chamam de doida;
    eu sorrio e os apedrejo,
    pra aprenderem
    que as loucas têm perfeita pontaria.

             Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

HORÁRIO NOBRE

(Ciclo infantil)


         As mães dos meu edifício
         falam assim com seus filhos:
         — "Cuidado pra não cair...
         Se sujar a roupa nova
         eu vou lhe dar uma sova".
         Tem outra espécie, também,
         que sempre se sobressai,
         a que ameaça terrível:
         — "Eu vou contar pro seu pai"...
         Por fim, eu ouço a que diz:
         — "Ah, meu Deus, que mal eu fiz
         pra ter tido este estrupício?"
         Eu então, ouvindo isso,
         me arrisco a uma conclusão
         sem brilho e bem pessoal:
         mãe sorrindo para os filhos,
         só na televisão
         em algum comercial...



Leila Míccolis

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

RECUERDOS DO CEARÁ

Capa de Cláudio Morato
 
Em 1977, deixei a advocacia cheia de garra pela literatura, Ágape que até hoje não perdi, embora seja um pouco mais moderada do que há vinte e dois anos. Logo no ano seguinte, em 1978, Wladyr Nader, da então heróica Revista Escrita (SP), encomendou-me pela sua Editora Vertente, uma antologia com poetisas "não-alinhadas", ou seja, escritoras que não estivessem satisfeitas com a situação do mundo nem com a própria condição feminina. Reuni dez "Mulheres da Vida", título polêmico, próprio para mulheres que estavam na vida, questionando diversos aspectos sociais. O título, severamente criticado por direitistas, por esquerdistas tradicionalistas e até por centristas pseudo-moralistas, foi muito bem compreendido pelo público, que o interpretou corretamente, sem conotações depreciativas, como, aliás, eu previra mesmo que o fizesse.

Lancei a antologia no Rio de Janeiro e em várias capitais nordestinas, inclusive Recife e Natal. Quando cheguei em Fortaleza, nenhuma livraria queria aceitá-lo. Estávamos ainda sob o tacão da repressão e os livreiros receavam que a polícia aparecesse e fizesse das suas costumeiras gentilezas: invadisse a loja selvagemente, batesse nas pessoas, rasgasse livros, revirasse todas as prateleiras, instalasse o pânico. Ninguém queria correr este risco por lá. Para piorar, um jornalista que ouviu cantar o galo, mas não sabia onde (no caso, não lera o livro mas queria parecer bem informado), resolveu escrever que "Mulheres da Vida" era um relato autobiográfico de dez prostitutas. Eitcha! Aí danou-se tudo, fecharam-se de vez as portas de livrarias, pois todas eram muito decentes, de boa família e de fino trato.


Liguei para minha amiga Socorro Trindad, em Natal, uma das integrantes do livro (as outras eram: Norma Bengell, Isabel Câmara, Maria Amélia Mello, eu, Eunice Arruda,  Many Tabachinik, Glória Perez, Aninha Franco e Réca Poletti). Relatei minha dificuldade e, depois de pensar um pouco, ela me sugeriu: "bom, se estão falando isto de nós e se as livrarias não aceitam o livro, então lance-o num prostíbulo"... Gostei da idéia. Dirigi-me a uma casa que achei simpática, nas imediações da Praça São Sebastião, e fui muito bem recebida lá. Maria Loura deu-me todas as facilidades para a realização do meu projeto, e, alguns dias depois, autografei o livro no Cabaré Estrela do Oriente.

O que devia ser lançamento, passou a ser algo diferente, inusitado, novo, com significados simbólicos: uma espécie de manifesto cultural, um ato de veemente protesto, chamando a atenção da mídia para o evento. Resultado: todos os jornais e televisões cobriram a "ousada manifestação cultural" e nunca tive um lançamento fora do Rio de Janeiro com tanta gente (inclusive foi lá que conheci Paulo Veras, saudoso parceiro, depois, no livro "Maus Antecedentes"). A intelectualidade em peso esteve presente, e também inúmeros políticos, que "hipotecaram sua solidariedade à nobre causa" literária. Vendi tanto livro que os exemplares que levei não foram suficiente; acabei vindo com mais de cento e cinqüenta encomendas pagas adiantadamente, mesmo os compradores sabendo que só receberiam o seu exemplar quase quinze dias depois, quando eu retornasse ao Rio.

O mais bonito de tudo, porém, foi a atitude da dona do bordel. Ela se sentia muito contente pelas altas personalidades em seu estabelecimento, é claro, mas estava mais comovida ainda pelo livro em si, por escritoras de nome não terem tido medo de serem "confundidas com elas". Eu raramente vi alguém pegar um exemplar com tanta consideração, com tanto respeito. Também raramente vi alguém ter uma interpretação tão simples e tão adequada de meus poemas. Era uma fase em que eu, propositadamente, queria chocar os bem-comportados, sacudir-lhes os ombros, e não media palavrões para agredir os puritanos. Pois ela, sem se importar com as palavras "de baixo calão" (afinal, costumava ouvi-la todas às noites justamente dos bem-comportados e dos puritanos), passou por elas com a maior naturalidade e se deteve no cerne da mensagem, que elas conheciam, na própria pele: o questionamento da condição feminina.

Maria Loura estabeleceu as "medidas de exceção" que achou compatíveis com a ocasião solene: a primeira delas foi a ordem expressa para que nenhuma de suas meninas trabalhasse, o que desmontou a imagem que tinham me dado, de que elas fossem extremamente interesseiras e mercenárias... Aquelas pelo menos, se fossem, teriam muito bem aproveitado a chance de triplicarem os lucros pela grande freguesia interessada nelas, já que o programa era insólito: compre um livro e leve uma menina... No entanto, todas diziam não. Trabalho, naquela noite, só de garçonetes, servindo as mesas, de copeiras, lavando a louça... Depois, Maria Loura continuou me supreendendo quando não aceitou o percentual da venda do livro, combinado anteriormente. Alegou que o consumo de comes e bebes fora mais do que suficiente, lucrara com isso e, principalmente, com a propaganda; por fim, no final da noite, ainda sentou-se com suas meninas e varou a madrugada me contando histórias, de alegria, de dor, de decepção, de esperança, e todas me tocaram profundamente, mudando em muito a imagem que eu tinha da "profissão mais antiga do mundo"....

Hoje, ao lembrar-me de Maria Loura e suas meninas do Cabaré Estrela do Oriente vem-me a mente a letra de Chico Buarque de Hollahda, em "Umas  e Outras", quando uma freira e uma prostituta cruzam a mesma rua: "Mas toda santa madrugada/ quando uma já sonhou com Deus/ e a outra, triste namorada,/ coitada, já deitou com os seus,/ o acaso faz com que essas duas,/ que a sorte sempre separou,/ se cruzem pela mesma rua/ olhando-se com a mesma dor"... Não éramos freiras, naturalmente, mas, sem dúvida, mesmo com vidas tão diferentes, nos reconhecíamos, naquela  noite, entre tantos sentimentos conflitantes oriundos de uma severa sociedade patriarcal.

Sempre me lembro deste lançamento com muito carinho, e o considero como sendo o melhor que já tive até hoje.

                                                  Leila Míccolis

domingo, 22 de janeiro de 2012

POSIÇÃO


    Injustiça e veneno
    é dizer que só me deito sobre os louros.
    Também sob os morenos...

                    Leila Míccolis

    D
    o livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sábado, 21 de janeiro de 2012

ORAÇÃO INFANTIL

 
(Ciclo infantil)
         
         Quando vem gente conversar com meus pais
         eles não me batem;
         sorriem muito pra mim,
         falam num tom bem baixinho,
         me enchem de tanto carinho,
         não me botam de castigo
         não ralham nunca comigo
         e até minhas traquinadas
         viram "excesso de energia"...
         Por isso, Senhor, dai-me, ao menos,
         uma visita por dia...



                                                        Leila Míccolis

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

NEM FREUD EXPLICA...

 
Apesar de tanta ânsia
só conseguimos nos amar,
à distância...
                             Leila Míccolis

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NAMORO À ANTIGA ou SAUDOSA MALOCA...


Namoro antigo: titia
na sala bordando um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...


Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...


Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.


E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...



                    Leila Míccolis

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Intuição


    Ter nas pessoas
    a confiança dos gatos,
    que fecham os olhos
    e esticam o pescoço,
    na certeza do carinho.

    Leila Míccolis
                                                 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CARNAVAL

 

Foi criança, cresceu,
casou, cuidou da casa, seu marido morreu,
deixou seis filhos,
trabalhou para mantê-los,
perdeu quilos,
mas a recompensaram pelos danos:
agora por três dias, todo ano,
torna-se a Miss-Velhice lá do Asilo.
                    Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1998, RJ

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ESTABILIDADE


Vivemos como casal:
você trabalha demais,
me sustenta,
proíbe isso e aquilo,
exige a casa arrumada,
quer almoço à uma hora,
o jantar às sete e meia,
sobremesas variadas...



Com teus caprichos concordo,
e por vingança, te engordo.



                     Leila Míccolis