domingo, 9 de novembro de 2008

O LUCRO DO SABER

Hoje recebi um e-mail de um escritor que propunha colocar à venda em Blocos um livro seu porque o site desse autor "não tinha fins lucrativos", no dizer dele próprio. Sempre que leio esta frase ou algo semelhante com relação a literatura, fico refletindo com os meus botõezinhos: mesmo em uma sociedade capitalista como a nossa, sabemos que o lucro individual não vem apenas de proventos e rendimentos financeiros, mas se origina também do saber, da instrução, da conscientização social, do aprimoramento da análise crítica, da ética, do respeito, do caráter, da criatividade e de outros valores morais que fazem o ser humano evoluir, melhorar, crescer em suas potencialidades afetivas, intelectuais e sensórias. Esperamos então que, através da navegação dessas quase 50.000 páginas online de Blocos, você ganhe muito em matéria de leitura, de informação e de reflexão, alargando fronteiras, intercâmbios, trocando idéias, sugestões, ampliando o exercício da cidadania, através da arte e da literatura. Portanto, é com muito orgulho e alegria que afirmamos: "Blocos On line e este blog têm fins lucrativos".
Precisamos refletir mais e parar de percebermos a realidade pela restrita visão dos buracos das fechaduras, achando que apenas a literatura é uma arte celestial, dom misterioso e divino, isento de impostos e tributações... Como qualquer produto cultural na atual economia globalizante, ou ela segue as leis do mercado ou está alijada dele. Por essas e outras eu sempre digo que a poesia brasileira ainda está muito mais para as intrigas da corte do século XVIII do que para a sociedade tecnológica do século XXI. (LM)

12 comentários:

Márcia Sanchez Luz disse...

Leila querida, este texto resume bem a maneira como nos vemos enquanto escritores x como somos vistos como tais. Se nós mesmos não entendermos que o que produzimos deve gerar renda, quem entenderá?

Beijos em seu coração,

Márcia

ROGEL SAMUEL disse...

O BRASIL SÓ SERÁ VISTO COMO UM PAÍS DESENVOLVIDO (E PÓS-MODERNO) QUANDO OS POETAS E ESCRITORES FOREM RESPEITADOS E REMUNERADOS COMO PRODUTORES DE CULTURA, ASSIM COMO OS CINEASTAS, OS MÚSICOS ETC. ESCREVER NÃO É UMA ATIVIDADE ESPORTIVA OU LAZER DE UMA CLASSE OCIOSA, NEM UMA ATIVIDADE DE FIM DE SEMANA, MAS O ESCRITOR QUE SE VÊ COMO TAL LEVA A SÉRIO O SEU TRABALHO E HOJE MAIS DO NUNCA PELA INTERNET ELE TEM NOVOS CANAIS DE COMUNICAÇÃO COM SEU PÚBLICO. POR ISSO LEILA MICCOLIS ACERTOU EM CHEIO NA RAIZ DO PROBLEMA: OU SEJA, A PROFISSÃO DE ESCRITOR!
ESSE DEBATE DEVE APROFUNDAR-SE, TEM DE APROFUNDAR-SE PARA LEVANTAR OS POETAS DO ESTADO ANESTÉSICO, DO TORPOR EM QUE NÓS NOS ENCONTRAMOS.
TRATA-SE DE UM PROBLEMA DE SOBREVIVÊNCIA DA NACIONALIDADE.
ROGEL SAMUEL

Lucia Constantino disse...

Através de Ulisses, conheci seu blog. Concordo com teu texto -- muito real --- eu, com um livro publicado, também enfrento essa visão distorcida da realidade de hoje, infelizmente: parece que "não devo vender" e sim doar, doar... assim muitas pessoas me passam essa mensagem quando lhes comunico que tenho um livro meu à venda -- uma forma de pensar distorcida, ao meu modo de ver. Temos um produto, fruto de nosso esforço e nosso trabalho e é assim que ele deve ser visto, valorizado. Um grande abraço pra ti. Lúcia Constantino.

Juliana Meira disse...

poeta Leila Míccolis

ótimo texto, cheio de verdade verdadeira. parabéns!

tenho em meus "favoritos" o endereço de sua página na web e agora encontrei "Leila Míccolis - links e thinks", que também guardei.

abraço!

Juliana Meira

Leila Míccolis disse...

Rogel, é uma luta constante e diária, aguerrida, mas sinto que este é um bom combate, por isso não desisto dele. Beijos, Leila

Leila Míccolis disse...

Lucia, seja muito bem-vinda. Amiga de Ulisses é minha também. Pois é, pagamos até o ar que respiramos, só o livro, que não é uma mercadoria nada barata, deve ser doado... E com este tipo de comportamento desvaloriza-se (e até alija-se) o trabalho do autor, do editor e das livrarias. Enquanto esta mentalidade não for mudada, a situação permanecerá a mesma. Beijos, Leila

Leila Míccolis disse...

Muito obrigada, Juliana, chegue mais! Beijos, Leila

ROGEL SAMUEL disse...

"Escrevo melhor em dólar"

Rogel Samuel

Recentemente minha amiga Leila Miccolis escreveu e publicou um texto no seu blog
http://leilamiccolis.blogspot.com/ intitulado "O LUCRO DO SABER".
"Hoje recebi um e-mail de um escritor que propunha colocar à venda em Blocos um
livro seu porque o site desse autor "não tinha fins lucrativos", no dizer dele próprio",
disse Leila, e defendia a seguir a remuneração dos autores.
Ao seu texto escrevi o seguinte comentário (eu tenho a mania de escrever em maiúscula,
desculpem): O BRASIL SÓ SERÁ VISTO COMO UM PAÍS DESENVOLVIDO (E PÓS-MODERNO) QUANDO OS POETAS E ESCRITORES FOREM RESPEITADOS E REMUNERADOS COMO PRODUTORES DE CULTURA, ASSIM COMO OS CINEASTAS, OS MÚSICOS ETC. ESCREVER NÃO É UMA ATIVIDADE ESPORTIVA OU LAZER DE UMA CLASSE OCIOSA, NEM UMA ATIVIDADE DE FIM DE SEMANA, MAS O ESCRITOR QUE SE VÊ COMO TAL LEVA A SÉRIO O SEU TRABALHO E HOJE MAIS DO NUNCA PELA INTERNET ELE TEM NOVOS CANAIS DE COMUNICAÇÃO COM SEU PÚBLICO. POR ISSO LEILA MICCOLIS ACERTOU EM CHEIO NA RAIZ DO PROBLEMA: OU SEJA, A PROFISSÃO DE ESCRITOR!
ESSE DEBATE DEVE APROFUNDAR-SE, TEM DE APROFUNDAR-SE PARA LEVANTAR OS POETAS DO ESTADO ANESTÉSICO, DO TORPOR EM QUE NÓS NOS ENCONTRAMOS.
TRATA-SE DE UM PROBLEMA DE SOBREVIVÊNCIA DA NACIONALIDADE.
Sobre este tema me lembro do seguinte e curioso fato artístico, desta vez musical, narrado por
Nalen Anthoni em vídeo da EMI.
Depois da Segunda Guerra, o compositor inglês William Walton compôs um concerto para Jascha Heifetz a pedido deste. Depois, em 1956, o violoncelista Gregor Piatigorsky, um dos maiores do seu tempo, fez o mesmo pedido a Walton. Mas Piatigorsky fez o pedido através de um intermediário, o pianista Ivor Newton.
Walton respondeu: "Eu sou um compositor profissional. Escrevo não importa o quê para
qualquer um desde que me pague..." E depois de uma pausa, acrescentou: "Eu escrevo melhor quando me pagam em dólar".
Walton terminou o concerto no mesmo ano, o magnífico Concerto para Violoncelo e Orquestra, que está no vídeo, e que foi executado pela primeira vez em janeiro de 1957 por Piatigorsky com a Boston Symphony Orchestra, dirigida por Charles Munch.
Não se diz quanto o violoncelista pagou.

Leila Míccolis disse...

"Escrevo melhor em dólar"... Que maravilha esta sua crônica.
É exatamente isso o que eu penso. Lembra-me uma entrevista que vi com Fellini certa vez na TV. Perguntaram a ele como se dava o seu processo criativo (crentes que ele enalteceria alguma etapa da sua "sublime" criatividade) e ele respondeu, simples e "cinicamente" - principalmente para a época de 70: "É assim: tenho uma idéia e corro atrás de um patrocinador. Ele me paga e aí sou obrigado a realizar o filme. Igual aos artistas plásticos na Idade Média que, se não fizessem suas pinturas, tinham as mãos cortadas pelo respectivo mecenas"...
Na época foi o tipo da resposta que gerou muito mal estar na própria entrevistadora e nos intelectuais de plantão... Do meu canto, aplaudi-o muito, como faço agora com você.
Fico feliz que um texto meu esteja dando continuidade ao debate... Você me autoriza a divulgá-lo no orkut, na minha comunidade: profissionalização do escritor, e em Blocos?

Madalena Barranco disse...

Leila, querida, que bom saber que agora você também tem um bloguinho! Ops, melhor dizendo: "bloquinho" - rsrsrsr.

Oh, você está certa. Afinal, quem escreve precisa sobreviver e esse é o trabalho do escritor. Escrever fantasia não me distancia da realidade.

Beijos, com carinho,
Madalena
P.S.: parabéns pela linda notícia que li em seu último informativo Blocos, onde informa que você foi merecidamente eleita membro Correspondente da Academia Cachoeirense de Letras.

Chris Herrmann disse...

Amei essa crônica, Leila. É a mais pura verdade. O Brasil ainda está muito atrasado nesse sentido. Precisamos igualar a Literatura a todas as outras ciências.

Beijos, amiga. E parabéns, mais uma vez, pelo conteúdo de extrema importância do texto e de todo o Blog.

Chris

Leila Míccolis disse...

Chris querida, você também é uma "promoter" cultural... sabe das coisas e, principalmente, de que apoio é essencial. Obrigada pelo seu. Milhões de beijos.