quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Intuição


    Ter nas pessoas
    a confiança dos gatos,
    que fecham os olhos
    e esticam o pescoço,
    na certeza do carinho.

    Leila Míccolis
                                                 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CARNAVAL

 

Foi criança, cresceu,
casou, cuidou da casa, seu marido morreu,
deixou seis filhos,
trabalhou para mantê-los,
perdeu quilos,
mas a recompensaram pelos danos:
agora por três dias, todo ano,
torna-se a Miss-Velhice lá do Asilo.
                    Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1998, RJ

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ESTABILIDADE


Vivemos como casal:
você trabalha demais,
me sustenta,
proíbe isso e aquilo,
exige a casa arrumada,
quer almoço à uma hora,
o jantar às sete e meia,
sobremesas variadas...



Com teus caprichos concordo,
e por vingança, te engordo.



                     Leila Míccolis

domingo, 15 de janeiro de 2012

NO MATO COM CACHORROS

 
Viver no interior de uma cidade nem sempre é viver em um campo. Campo, como o nome diz é campo: "terreno extenso e mais ou menos plano que tanto se pode destinar às pastagens do gado como ao cultivo agrícola" - segundo o Dicionário do Aurélio. É certo que nas cidades do interior ainda há muito mais campos, mas um não pressupõe o outro.
Aqui, em Maricá, podemos dizer que moramos em uma área rural (embora nosso IPTU seja cobrado como área urbana, para que o contribuinte pague mais): a estrada não é asfaltada e há mais bois e cabras no caminho do que gente passando. Também temos boa área para plantar e colher. No entanto, nem tudo é um mar de rosas - aliás, mar é o que não existe por perto, estamos na parte montanhosa de Maricá: há mosquitos, pernilongos, cobras, lagartos e lagartixas, camaleões, moscas, sapos, rãs, pererecas e outros insetos, bratáquios e répteis de maiores ou menores proporções.

A mudança do Rio para Maricá foi difícil, a ponto de eu fazer um livro de poesia "Sob o Céu de Maricá" para exorcisar as calamidades cotidianas da vida campestre... Após oito anos, já vejo a vida no campo com outros olhos, até por causa de nossos animais, que, embora dêem muito trabalho, nos dão também muitas alegrias: são mais de 35 gatos, quase 20 cachorros, além de patos, marrecos, perus, galinhas, porquinhos da índia, pavões, e uma porca (chamada Bolívia). Também existe um gambá, que mora debaixo da escada que vai dar na piscina. Muitas vezes micos nos visitam, pulando entre as árvores, alguns morcegos, bichos-paus (lindos), louva-deus, e, diariamente pirilampos, borboletas (brancas, azuis, amarelas) e, naturalmente, colibris, sempre apressados e nervosos. Um mini-zoológico bastante variado. Aqui, não matamos nenhum animal, nem mesmo baratas, embora Joana, a gata caçadora corra atrás de todos os bichos menores que ela, e, se não conseguimos salvá-los a tempo, era uma vez. Quanto à plantação, temos muitas árvores frutíferas, uma hortinha gostosa com pimenteiras carregadas, bonsais que, plantados na terra, viraram árvores magníficas, e um papiro, de que eu gosto muito, além de congéias, ipês, mulungus, casuarinas (ainda pequenas), e um orquidário - passatempo predileto do Urhacy - com espécies nativas raras, inclusive.

Gosto de Maricá: a natureza tanto na parte do mar quanto na da montanha é exuberantemente bela, e a qualidade de vida é outra - embora a infra-estrutura seja péssima (incrível, porque fica distante de Niterói apenas vinte minutos, e do Rio, apenas a quarenta) e haja também enorme carência de pessoas interessantes (também porque falta teatro, cinema e até internet a cabo aqui na "periferia" - o cabo só vai na área mais central de Maricá). No entanto, aos poucos, os escritores descobrem Maricá - a Simone Salles já mora aqui, o Flávio Machado está vindo também - e mudam, com seus pensamentos a geografia da cidade.

Maricá? A maioria das pessoas da "capital" acha o fim do mundo, e não entende até hoje, como pessoas artistas (leia-se "civilizadas") podem morar no meio do mato (e com tanto cachorro...). Para elas, atravessar quinze minutos de ponte Rio-Niterói e andar mais vinte na estrada é inconcebível, embora levem muitas vezes mais de uma hora para fazer o trajeto da Barra da Tijuca até Ipanema... Ao contrário do que pode parecer de início, esse maior isolamento faz com venham para cá apenas os amigos, para os quais a distância nunca foi obstáculo ou pretexto para se afastarem de nós. Salve portanto Maricá, com seus aprendizados e colheitas-lições diárias de vida.
Leila Míccolis

sábado, 14 de janeiro de 2012

DESCRÉDITO

Se me perguntam:
— “Escrever pra TV, rende?”,
respondo: “Depende
dos créditos”,
— aquelas letrinhas em que aparece
o nome da gente
no começo ou no final,
dependendo do canal.
A gente briga pra tê-los,
pra vê-los nas novelas, seriados
e acaba pirado
porque escritor não tem crédito
nem em Banco,
já que o saldo é sempre manco
e ninguém credita nada.
Ê profissãozinha desacreditada...

                 Leila Míccolis
Do livro Sangue Cenográfico, Ed. Blocos, 1997, RJ

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MARINHAS



(três fragmentos)


Com tanto lixo a boiar,
— Caymmi que me perdoe —
é triste morrer no mar.



De tralha, coisa velha e porcaria
o mar virou um baú:
as gaivotas cederam a vez
aos urubus.



E as sereias e as iaras que cantavam
para os homens atrair,
hoje, em coro, só apelam
para que as tirem dali.



      Leila Míccolis

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MERA COINCIDÊNCIA

    Fonte da imagem:
     http://blogclickae.blogspot.com

    Quando ela o viu
    perto do poste da praça,
    belo espécime da raça,
    notou semelhança extrema
    com um artista de cinema.
    Mas não achava com quem
    se parecia o seu bem.
    Hoje dentro do drive-in
    lembrou do galã enfim,
    cara d’um, focinho d’outro:
    pois não é que o seu garoto
    é o sósia do Rin-Tin-Tin?...


                           Leila Míccolis

    Do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

MEU MANUAL DE MANUEL

                                           Retrato de Manuel Bandeira por Cândido Portinari


Faltou luz a tarde inteira
e eu não pude ligar o micro.
Então, fui reler Bandeira:
Poética, A Canção do Beco,
Teresa, Arte de Amar, Martelo,
Neologismo, Carta do meu avô,
Preparação para a Morte...
Pensão familiar...

Ele rimava porque queria rimar,
não porque precisasse:
cada verso seu
é uma obra completa.
O poeta
era a própria Passárgada,
o amigo, o rei
e até mesmo a filha
— amante da Poesia.

Teria conhecido Cuzco, como desejava?
Parou de tossir?
Parou de morrer?
Se voou para os céus dos passarinhos
já deve ter se encontrado com Mozart,
com Irene,
com o balão que subiu
e não caiu na Rua do Sabão...

Fim do dia, meu poeta.
Lá fora, os Sapos, mesmo não lendo tua obra,
declamam dentro do mato:
— “Não foi!” — “Foi” — “Não foi”...
(Ou são cãezinhos bebendo água:
Cloc... cloc... cloc... ?)

Com um toque,
fecho o livro, não há mais luz pra leitura,
mas continuo lembrando a textura
dos teus versos
tão imensos, tão imersos
nos movimentos do mundo.
E mesmo no escuro de uma noite como esta,
sem lua, sem estrelas,
só com pirilampos cansados e apagados,
você brilha,
Manuel.
Belo belo.

              Leila Míccolis
Do livro: Poetas 2000, org. Mônica Banderas, Ed. Blocos, 2002, RJ

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MOVI(ES)MENTO


a Mélies e a Lumière
No começo era o Verbo
e a Luz se fez.
Mas ao Homem isto não satisfez;
tanto que, tempos depois,
juntou os dois numa magia sincrética e suprema:
criou o Cinema...
Leila Miccolis

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Identidades


    Papai era,
    mal comparando,
    uma dama da noite:
    volúvel e boêmio
    sumia às vezes
    meses
    (enquanto lhe pagassem tragos
    batia asas).
    E mamãe ficou sendo
    o homem da casa.


                               Leila Míccolis 

domingo, 8 de janeiro de 2012

DIFERENÇA

 
(Ciclo infantil) 
Meu mundo é violento e com razão:
na rua, se eu apanho, é covardia
em casa, se eu apanho, é educação...
Leila Míccolis

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...