domingo, 22 de janeiro de 2012

POSIÇÃO


    Injustiça e veneno
    é dizer que só me deito sobre os louros.
    Também sob os morenos...

                    Leila Míccolis

    D
    o livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sábado, 21 de janeiro de 2012

ORAÇÃO INFANTIL

 
(Ciclo infantil)
         
         Quando vem gente conversar com meus pais
         eles não me batem;
         sorriem muito pra mim,
         falam num tom bem baixinho,
         me enchem de tanto carinho,
         não me botam de castigo
         não ralham nunca comigo
         e até minhas traquinadas
         viram "excesso de energia"...
         Por isso, Senhor, dai-me, ao menos,
         uma visita por dia...



                                                        Leila Míccolis

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

NEM FREUD EXPLICA...

 
Apesar de tanta ânsia
só conseguimos nos amar,
à distância...
                             Leila Míccolis

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NAMORO À ANTIGA ou SAUDOSA MALOCA...


Namoro antigo: titia
na sala bordando um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...


Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...


Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.


E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...



                    Leila Míccolis

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Intuição


    Ter nas pessoas
    a confiança dos gatos,
    que fecham os olhos
    e esticam o pescoço,
    na certeza do carinho.

    Leila Míccolis
                                                 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CARNAVAL

 

Foi criança, cresceu,
casou, cuidou da casa, seu marido morreu,
deixou seis filhos,
trabalhou para mantê-los,
perdeu quilos,
mas a recompensaram pelos danos:
agora por três dias, todo ano,
torna-se a Miss-Velhice lá do Asilo.
                    Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1998, RJ

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

ESTABILIDADE


Vivemos como casal:
você trabalha demais,
me sustenta,
proíbe isso e aquilo,
exige a casa arrumada,
quer almoço à uma hora,
o jantar às sete e meia,
sobremesas variadas...



Com teus caprichos concordo,
e por vingança, te engordo.



                     Leila Míccolis

domingo, 15 de janeiro de 2012

NO MATO COM CACHORROS

 
Viver no interior de uma cidade nem sempre é viver em um campo. Campo, como o nome diz é campo: "terreno extenso e mais ou menos plano que tanto se pode destinar às pastagens do gado como ao cultivo agrícola" - segundo o Dicionário do Aurélio. É certo que nas cidades do interior ainda há muito mais campos, mas um não pressupõe o outro.
Aqui, em Maricá, podemos dizer que moramos em uma área rural (embora nosso IPTU seja cobrado como área urbana, para que o contribuinte pague mais): a estrada não é asfaltada e há mais bois e cabras no caminho do que gente passando. Também temos boa área para plantar e colher. No entanto, nem tudo é um mar de rosas - aliás, mar é o que não existe por perto, estamos na parte montanhosa de Maricá: há mosquitos, pernilongos, cobras, lagartos e lagartixas, camaleões, moscas, sapos, rãs, pererecas e outros insetos, bratáquios e répteis de maiores ou menores proporções.

A mudança do Rio para Maricá foi difícil, a ponto de eu fazer um livro de poesia "Sob o Céu de Maricá" para exorcisar as calamidades cotidianas da vida campestre... Após oito anos, já vejo a vida no campo com outros olhos, até por causa de nossos animais, que, embora dêem muito trabalho, nos dão também muitas alegrias: são mais de 35 gatos, quase 20 cachorros, além de patos, marrecos, perus, galinhas, porquinhos da índia, pavões, e uma porca (chamada Bolívia). Também existe um gambá, que mora debaixo da escada que vai dar na piscina. Muitas vezes micos nos visitam, pulando entre as árvores, alguns morcegos, bichos-paus (lindos), louva-deus, e, diariamente pirilampos, borboletas (brancas, azuis, amarelas) e, naturalmente, colibris, sempre apressados e nervosos. Um mini-zoológico bastante variado. Aqui, não matamos nenhum animal, nem mesmo baratas, embora Joana, a gata caçadora corra atrás de todos os bichos menores que ela, e, se não conseguimos salvá-los a tempo, era uma vez. Quanto à plantação, temos muitas árvores frutíferas, uma hortinha gostosa com pimenteiras carregadas, bonsais que, plantados na terra, viraram árvores magníficas, e um papiro, de que eu gosto muito, além de congéias, ipês, mulungus, casuarinas (ainda pequenas), e um orquidário - passatempo predileto do Urhacy - com espécies nativas raras, inclusive.

Gosto de Maricá: a natureza tanto na parte do mar quanto na da montanha é exuberantemente bela, e a qualidade de vida é outra - embora a infra-estrutura seja péssima (incrível, porque fica distante de Niterói apenas vinte minutos, e do Rio, apenas a quarenta) e haja também enorme carência de pessoas interessantes (também porque falta teatro, cinema e até internet a cabo aqui na "periferia" - o cabo só vai na área mais central de Maricá). No entanto, aos poucos, os escritores descobrem Maricá - a Simone Salles já mora aqui, o Flávio Machado está vindo também - e mudam, com seus pensamentos a geografia da cidade.

Maricá? A maioria das pessoas da "capital" acha o fim do mundo, e não entende até hoje, como pessoas artistas (leia-se "civilizadas") podem morar no meio do mato (e com tanto cachorro...). Para elas, atravessar quinze minutos de ponte Rio-Niterói e andar mais vinte na estrada é inconcebível, embora levem muitas vezes mais de uma hora para fazer o trajeto da Barra da Tijuca até Ipanema... Ao contrário do que pode parecer de início, esse maior isolamento faz com venham para cá apenas os amigos, para os quais a distância nunca foi obstáculo ou pretexto para se afastarem de nós. Salve portanto Maricá, com seus aprendizados e colheitas-lições diárias de vida.
Leila Míccolis

sábado, 14 de janeiro de 2012

DESCRÉDITO

Se me perguntam:
— “Escrever pra TV, rende?”,
respondo: “Depende
dos créditos”,
— aquelas letrinhas em que aparece
o nome da gente
no começo ou no final,
dependendo do canal.
A gente briga pra tê-los,
pra vê-los nas novelas, seriados
e acaba pirado
porque escritor não tem crédito
nem em Banco,
já que o saldo é sempre manco
e ninguém credita nada.
Ê profissãozinha desacreditada...

                 Leila Míccolis
Do livro Sangue Cenográfico, Ed. Blocos, 1997, RJ

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MARINHAS



(três fragmentos)


Com tanto lixo a boiar,
— Caymmi que me perdoe —
é triste morrer no mar.



De tralha, coisa velha e porcaria
o mar virou um baú:
as gaivotas cederam a vez
aos urubus.



E as sereias e as iaras que cantavam
para os homens atrair,
hoje, em coro, só apelam
para que as tirem dali.



      Leila Míccolis

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MERA COINCIDÊNCIA

    Fonte da imagem:
     http://blogclickae.blogspot.com

    Quando ela o viu
    perto do poste da praça,
    belo espécime da raça,
    notou semelhança extrema
    com um artista de cinema.
    Mas não achava com quem
    se parecia o seu bem.
    Hoje dentro do drive-in
    lembrou do galã enfim,
    cara d’um, focinho d’outro:
    pois não é que o seu garoto
    é o sósia do Rin-Tin-Tin?...


                           Leila Míccolis

    Do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...