domingo, 29 de janeiro de 2012

Ponto de vista


Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.
                                        Leila Miccolis
Poema do livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sábado, 28 de janeiro de 2012

Para um sábado com mais sabor, uma receita naturalista



Abobrinha ao catupiry

Ingredientes:
1 abobrinha lavada grande, cortada em tira no sentido do comprimento
1 ovo
leite
farinha de trigo
1 lata de milho verde escorrido e lavado
manteiga
1 cebola pequena bem picadinha
cheiro verde - 1 caixa de catupiry (pode ser um copo de requeijão cremoso)
1 pacote pequeno de batata palha
sal e pimenta do reino a gosto
óleo para fritura


Modo de fazer:   

1 - Abobrinhas - Faça uma massa misturando ovo, leite e farinha de trigo, temperada com sal e pimenta do reino a gosto. Deixe as abobrinhas imersas nessa massa, por cerca de meia hora, pra que fiquem bem envolvidas. - Passe as abrobrinhas molhadas na massa pela farinha de trigo, frite-as dourando bem dos dois lados em óleo quente. Escorra em papel absorvente e reserve.
2. Milho - Numa panela aqueça a manteiga e frite a cebola até dourar. Refogue o milho escorrido e lavado, tempere a gosto com sal e pimenta do reino. Desligue a panela e acrescente cheiro-verde picadinho. Reserve.
3. Montagem do Prato - Aqueça o forno - Num refratário vá colocando em camadas: abobrinha, milho e catupiry. A última camada deve ser de catupiry. Jogue as batatinhas por cima e leve ao forno pra gratinar. Sirva com arroz e salada ou legumes verdes.


Receita enviada pela Thaty Marcondes



Leiam mais de 200 receitas naturalistas em meu site:
http://www.blocosonline.com.br/sites_pessoais/sites/lm/culinar/culititrec.htm

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EMPREGADA VIRTUAL


Manuela era uma empregada que mamãe não tinha, ou seja, uma abstração. 

 

Sempre que ela queria me chamar atenção por alguma coisa, dizia: – "Vai arrumar o quarto (ou lavar o prato ou qualquer outra coisa no gênero) que a Manuela hoje não veio". Eu já estava acostumada. No entanto, como falava na frente das visitas, algumas não percebiam que se tratava de uma ironia da parte dela. 

 

Um dia, uma de suas amigas lhe falou: – "Essa empregada falta mais do que trabalha, não sei porque você ainda não a despediu". Só então mamãe se deu conta de que a brincadeira estava sendo levada a sério e tratou de desfazer o mal-entendido, contando que Manuela não era real, não existia, era uma piada, hoje falaríamos fake...Quando D. Rosalinda soube que não havia Manuela nenhuma, ficou visivelmente consternada. Eu era criança, mas percebi seus sentimentos pela expressão semelhante a que eu própria tive quando soube que Papai Noel não existia. Na época, se meus coleguinhas diziam que o "bom velhinho" era mentira, eu estufava o peito e argumentava: – "Mamãe disse que ele existe e eu acredito, porque mamãe não mente". Imagine então a surpresa quando encontrei os presentes que eu pedira de Natal no guarda-roupa de meus pais (naquela época, naturalmente, eu ainda não discernia a mentira da fantasia e da ficção; aliás, porque as fronteiras entre este trio às vezes são bem difusas e tênues). 

 

Pois foi a mesma cara de decepção que eu vi estampada no rosto da visitante, abalada com a informação. Na hora não entendi direito o porquê, mas hoje penso que talvez minha mãe fosse a única das amigas de D. Rosalinda a ter uma empregada, ainda por cima uma empregada faltosa, cuja patroa, em sua grande generosidade, a mantinha há anos. Portanto, mexer em Manuela, era também, de certa forma, achar que minha mãe era... digamos insincera, para não taxá-la de mentirosa – isto abalaria a confiança que sentia pela grande amiga.

 

Manuela só ressurgiu das cinzas, na minha vida, quando recebi de uma amiga, uma frase de Wilhelm Stekel (quanto tempo não ouvia falar no discípulo de Freud – eu era sua fervorosa admiradora nos tempos da minha Faculdade de Direito, época em que eu lia mais psicanálise do que obras jurídicas.... Depois mudei para Reich, mas esta é outra história). Escreveu Stekel: "Nem sempre a verdade é fundamental para a nossa felicidade... Existem pessoas que morrem quando seus olhos são abertos!" (O Pato Selvagem, de Ibsen, teatraliza este tema de forma intensamente impactante). 

 

Logo que terminei de ler a frase do psiquiatra austríaco, D. Rosalinda me veio à cabeça, porque não parou a dois parágrafos atrás a história dela com Manuela: foi tão forte para a amiga de minha mãe a ideia da inexistência daquela empregada, a quem provavelmente já imaginara com um corpo, gordo ou magro, e com uma história trágica a lhe justificar tanta falta, que a visitante preferiu pensar que minha mãe mentira sim, porém com a melhor das intenções, a de não "humilhá-la", pois D. Rosalinda jamais poderia pensar em ter uma – professora sempre foi mal remunerada em nosso país... Todos reverenciavam minha mãe por seu caráter ilibado, por ser devotadíssima diretora de escola primária e mestra também em delicadezas (na época dela – pasmem – as pessoas ainda tinham respeito umas pelas outras, achávamos verdadeiramente que "ninguém era melhor do que ninguém" e que bofetadas, só se dava... com luvas de pelica). Provavelmente por isso, a visitante preferiu acreditar nesta versão criada por ela mesma, por ser mais condizente e à altura da admiração nutrida por sua colega de profissão. Foi aí que a expressão facial dela repentinamente desanuviou-se, transformou-se, e, visivelmente, os sentimentos de frustração e de insegurança que sentia deram lugar a um largo sorriso de imensa gratidão.

 

Manuela morreu com mamãe, mas, por tantas e tantas histórias a ela atribuídas, foi a mais forte das personagens fictícias a conviver comigo na infância. Depois de Papai Noel, é claro. 


      Leila Míccolis

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

AMANTE DAS LETRAS

 

Não te importas com os homens que dormem comigo;
mas morres de ciúme
dos versos que faço para eles...


            Leila Míccolis

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ALVOS


    Se saio com quatro pedras na mão
    me chamam de doida;
    eu sorrio e os apedrejo,
    pra aprenderem
    que as loucas têm perfeita pontaria.

             Leila MíccolisDo livro: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

HORÁRIO NOBRE

(Ciclo infantil)


         As mães dos meu edifício
         falam assim com seus filhos:
         — "Cuidado pra não cair...
         Se sujar a roupa nova
         eu vou lhe dar uma sova".
         Tem outra espécie, também,
         que sempre se sobressai,
         a que ameaça terrível:
         — "Eu vou contar pro seu pai"...
         Por fim, eu ouço a que diz:
         — "Ah, meu Deus, que mal eu fiz
         pra ter tido este estrupício?"
         Eu então, ouvindo isso,
         me arrisco a uma conclusão
         sem brilho e bem pessoal:
         mãe sorrindo para os filhos,
         só na televisão
         em algum comercial...



Leila Míccolis

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

RECUERDOS DO CEARÁ

Capa de Cláudio Morato

Em 1977, deixei a advocacia para me dedicar a outra “causa” – a literária –, cheia de Ágape, chama do entusiasmo que até hoje não perdi, porque amo o que faço. Logo no ano seguinte, em 1978, Wladyr Nader, da então heroica Revista Escrita (SP), encomendou-me pela sua Editora Vertente, uma antologia com poetisas "não-alinhadas", ou seja, escritoras que não estivessem satisfeitas com a situação do mundo nem com a própria condição feminina. Reuni dez "Mulheres da Vida", título polêmico, próprio para mulheres que estavam na vida, questionando diversos aspectos individuais e sociais. O título, severamente criticado por direitistas severos, por esquerdistas tradicionalistas e até por centristas pseudomoralistas, foi muito bem compreendido pelo público, que o interpretou corretamente, sem conotações depreciativas, como, aliás, eu previra mesmo que assim fosse.

Lancei a antologia no Rio de Janeiro e em várias capitais nordestinas, inclusive Recife e Natal. Quando cheguei em Fortaleza, nenhuma livraria queria aceitar o livro. Estávamos ainda sob o tacão da repressão e os livreiros receavam que a polícia aparecesse e fizesse das suas costumeiras gentilezas: invadisse a loja selvagemente, batesse nas pessoas, rasgasse obras, revirasse todas as prateleiras, instalasse o pânico. Ninguém queria correr este risco, de questionar e/ou desagradar a TFP (Tradição, Família e Propriedade). Para piorar, um jornalista que ouviu cantar o galo, mas não sabia onde (no caso, não lera o livro mas queria parecer bem informado), resolveu escrever que "Mulheres da Vida" era um relato autobiográfico de dez prostitutas. Eitcha! Aí danou-se tudo, fecharam-se de vez as portas de livrarias, pois todas eram muito decentes, de boa reputação e de fino trato.

Liguei para minha amiga Socorro Trindad, em Natal, uma das integrantes do livro (as outras eram: Norma Bengell, Isabel Câmara, Maria Amélia Mello, eu, Eunice Arruda, Aninha Franco, Glória Perez. Many Tabachinik e Réca Poletti). Relatei minha dificuldade, e depois de pensar um pouco ela me sugeriu: "Bom, se estão falando isto de nós e se as livrarias não aceitam comercializar o livro, então lance-o num prostíbulo"... Gostei da ideia. Dirigi-me a uma casa que achei simpática, nas imediações da Praça São Sebastião, e fui muito bem recebida lá. Maria Loura deu-me todas as facilidades para a realização do meu projeto, e, alguns dias depois, autografei o livro no Cabaré Estrela do Oriente.

O que devia ser um lançamento de livro, transformou-se a ser algo diferente, inusitado, com inimagináveis significados simbólicos – uma espécie de manifesto cultural, um ato de veemente protesto, chamando a atenção da mídia para o evento. Resultado: todos os jornais e televisões cobriram a "ousada manifestação cultural" e nunca tive um lançamento fora do Rio de Janeiro com tanta gente (inclusive foi lá que conheci Paulo Veras, saudoso parceiro depois, no livro "Maus Antecedentes"). A intelectualidade em peso esteve presente, e também inúmeros políticos, que hipocritamente "hipotecaram sua solidariedade à nobre causa" literária... Vendi tanto livro que os exemplares que levei não foram suficientes para todos os leitores; acabei vindo com mais de cento e cinquenta encomendas pagas, mesmo os compradores sabendo que só receberiam o seu exemplar quase quinze dias depois, quando eu retornasse ao Rio de Janeiro.

O mais bonito de tudo, porém, foi a atitude da dona do bordel. Ela estava muito contente pelas altas personalidades em seu estabelecimento, é claro, mas estava mais comovida ainda pelo livro em si, por escritoras de nome não terem tido medo de serem "confundidas com elas". Eu raramente vi alguém pegar um exemplar com tanta consideração, com tanto respeito. Também raramente vi alguém ter uma interpretação tão simples e tão adequada de meus poemas. Era uma fase em que eu, propositadamente, queria chocar os bem-comportados, sacudir-lhes os ombros, e não media palavrões para agredir os puritanos. Pois ela, sem se importar com as palavras "de baixo calão" (afinal, costumava ouvi-las todas às noites justamente dos bem-comportados e dos puritanos), atravessou-as com a maior naturalidade e se deteve no cerne da mensagem, que elas conheciam na própria pele: a denúncia da desigualdade de gêneros, o farisaísmo, a opressão, a repressão.

Maria Loura estabeleceu as "medidas de exceção" que achou compatíveis com a ocasião solene: a primeira delas foi a ordem expressa para que nenhuma de suas meninas trabalhasse naquela noite, o que desmontou a imagem que tinham me dado, de que elas fossem extremamente interesseiras e mercenárias. Aquelas, se fossem, teriam aproveitado muito a chance de triplicarem os lucros pela grande freguesia interessada nelas, já que o programa era insólito na cabeça dos homens: compre um livro e leve uma menina... Una o útil ao agradável. Porém todas disseram não. Trabalho, naquela noite, só de garçonetes, servindo as mesas com bebidas e tira-gostos... Depois, Maria Loura continuou me surpreendendo quando não aceitou o percentual da venda do livro, combinado anteriormente. Alegou que o consumo de comes e bebes fora mais do que suficiente, lucrara com isso e, principalmente, com a propaganda; por fim, no final da noite, ainda se sentou com suas meninas e varou a madrugada me contando histórias, de alegria, de dor, de decepção, de esperança, e todas me tocaram profundamente, mudando em muito a imagem que eu tinha da "profissão mais antiga do mundo"....

Tenho um carinho especial ao lembrar-me deste lançamento, e o considero como sendo o melhor que já tive em minha vida.

Ao pensar em Maria Loura e nas mulheres do Cabaré Estrela do Oriente muitas vezes me veio à mente a letra de Chico Buarque de Hollanda, "Umas e Outras", na qual uma freira e uma prostituta cruzam a mesma rua: "Mas toda santa madrugada/ quando uma já sonhou com Deus/ e a outra, triste namorada,/ coitada, já deitou com os seus,/ o acaso faz com que essas duas,/ que a sorte sempre separou,/ se cruzem pela mesma rua/ olhando-se com a mesma dor"... Não se trata de uma comparação, óbvio, porque nenhuma das escritoras era freira, nem “perdidas”; mas, sem dúvida a conexão e a analogia aproximativa são visíveis: mesmo com vidas tão diversas, porém com tantos sentimentos conflitantes em comum provenientes de uma sociedade patriarcal desigual, manipuladora e autoritária, nos reconhecemos plenamente naquela noite, naquela mesma rua, olhando-nos (poeticamente) com a mesma dor e com a mesma com/paixão pelo mundo.

                                                  Leila Míccolis

domingo, 22 de janeiro de 2012

POSIÇÃO


    Injustiça e veneno
    é dizer que só me deito sobre os louros.
    Também sob os morenos...

                    Leila Míccolis

    D
    o livo: "Sangue Cenográfico", Blocos, 1997, RJ

sábado, 21 de janeiro de 2012

ORAÇÃO INFANTIL

 
(Ciclo infantil)
         
         Quando vem gente conversar com meus pais
         eles não me batem;
         sorriem muito pra mim,
         falam num tom bem baixinho,
         me enchem de tanto carinho,
         não me botam de castigo
         não ralham nunca comigo
         e até minhas traquinadas
         viram "excesso de energia"...
         Por isso, Senhor, dai-me, ao menos,
         uma visita por dia...



                                                        Leila Míccolis

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

NEM FREUD EXPLICA...

 
Apesar de tanta ânsia
só conseguimos nos amar,
à distância...
                             Leila Míccolis

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NAMORO À ANTIGA ou SAUDOSA MALOCA...


Namoro antigo: titia
na sala bordando um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...


Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...


Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.


E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...



                    Leila Míccolis

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Rio de Janeiro

VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Participação especial entre as Mulherageadas: Rui de Habeurim de 18 a 22 de Outubro...